Fragrâncias Transgênero Thierry Mugler Womanity (Em um Homem) (2010)

Thierry Mugler Womanity (Em um Homem) (2010)

08/05/16 02:16:12 (8 comentários)

por: Dr. Marlen Elliot Harrison

Resumo: Embora o nome sugira um público específico, eu sigo minha aversão a limites de gênero em perfumaria e exploro o aroma de Womanity... em um homem. Tendo acompanhado a divisão quase igual entre amor e ódio em relação a este polêmico aroma de figo, madeira de figueira e caviar, eu documento minha própria jornada fragrante e declaro o perfume como um doce sucesso.

Prós: Consegue oferecer familiaridade (fresco, ácido, cítrico aquático e frutas vermelhas) com algo novo (madeira defumada e caviar de água salgada, ou para o meu nariz, caramelado); dura para sempre na minha pele.

Contras: A caixa de papel frágil, o site esquizofrênico e o slogan ridículo – “A Ligação Invisível entre Mulheres”. Ainda não sei o que eu acho sobre o frasco ao estilo Fritz Lang; aparentemente aquela ligação invisível entre mulheres também inclui uma corrente de metal com uma tampa quase como algemas. O nome... bem, serei mais poético mais à frente na avaliação; quanto ao perfume, bem eu tenho pouco a reclamar além de parecer o menos vanguardista de todos os perfumes de Mugler até agora.


 
 

Descrição do Designer:


“Com Womanity, a ideia foi envolver energia, ternura e sofisticação ao mesmo tempo [...] Nós queríamos causar uma revolução com a inclusão de uma nota salgada – não oceânica, mas verdadeiramente salgada – numa fragrância. O mundo conheceu o verde, o oriental, o floral... aí com Angel nós inovamos com um perfume gourmand. Para mim, feminilidade invoca a noção de totalidade, de completude: doce e salgado juntos. Então tivemos que encontrar uma nota ‘salgada’, criar um acorde e compor um ritmo entre doce e salgado.”
                      
                                                     Thierry Mugler, Womanity Press Release


Notas: Figo, madeira de figueira, folhas de figo, caviar.

Perfumista: Fabrice Pellegrin

 

Breve História:
 

É impossível avaliar Womanity sem considerer a história de 18 anos de Parfums Mugler, uma parceria sensacional entre Thierry Mugler e Clarins. Quando eu estive na Europa pela primeira vez com 19 anos, trouxe comigo uma pequena amostra da nova fragrância que eu havia descoberto que me lembrava de um cruzamento entre sorvete congelado seco e incenso de patchouli. Estava sendo vendida como uma fragrância feminina mas ninguém ainda havia ouvido falar sobre ela quando eu a tirei da minha mochila uma noite numa boate em Londres. Meus amigos e eu nos revezamos aplicando gotas em pescoços femininos e pulsos masculinos e cada um de nós declarou o aroma delicioso e surpreendente, mas eles queriam saber se era para homem ou mulher. Aquela mistura revolucionária acabou se tornando o verdadeiro Angel da perfumaria do final do século XX. Ame-o ou odeie-o, o perfume tem se mantido popular por duas décadas, com usuários de ambos os sexos.
 

Depois veio A*Men or Angel for Men, dependendo do país onde você vive. Eu lembro que quando um tester chegou à Neiman Marcus onde eu trabalhei em 1996, meus colegas homens nos quiosques de fragrâncias engasgavam de horror. Minha mãe, por outro lado, roubou meus primeiros dois frascos e declarou serem ainda melhores que a versão feminina. Cada um com o seu: claramente os perfumes de Mugler dividiam seus públicos. Acompanhado por inúmeras piadas sobre uma possível terceira fragrância masculina com tema alfabético, B*Men chegou às prateleiras em 2004 com o seu tema de café e alcaçuz à Yohji Yamamoto e ainda pode ser encontrada com ótimos preços em lojas de descontos por toda a parte, um fiasco comercial. Naturalmente, um prostituto fragrante que sou, possui um frasco e o usei de tempos em tempos, embora sem muito amor.



Tantas versões de Angel depois e após um esquisito porém confortável Cologne unissex, e Alien chegaram em 2005 e parecia que alienígenas eram ao mesmo tempo mais florais e convencionais que anjos. O aroma à base de jasmim conquistou a atenção de parentes mais velhas por ser mais fácil de usar que o seu predecessor, mas um frasco de 30 ml parcialmente usado presenteado a mim por um gentil amigo de perfumes ainda permanece pela metade em alguma prateleira por aí. Sou fã, mas raramente mantenho companhia com Alien.

 


Você vê, eu nunca fui de prestar muita atenção à divisão de gêneros em perfumes. Simplesmente nunca fez sentido para mim. Qualquer um que entenda a história da arte que chamamos de perfumaria saberia que gênero é meramente uma tendência que muda de lado século após século. Em uma década, rosas e violetas são masculinas. Cinquenta anos depois, apenas um dândi seria pego cheirando a rosas. Cinquenta anos passados e eu apostaria dinheiro que um teste cego feito com um público geral não conseguiria dizer os gêneros de algumas das mais populares fragrâncias. Acrescente a esse argumento o fato de que o que sentimos como feminino em um contexto cultural é decisivamente masculino em outro e a tendência recente de tornar alimentos e rituais religiosos em perfumaria comercial. E concluo com esta questão: Quem seria capaz de limitar a sua apreciação de perfumes a um rótulo produzido por quem lucra com marketing? Em 2006, eu fiz o meu protesto sobre isso no Meu artigo no Basenotes "Wearing Whatever I Damn Well Please” e fiquei aliviado ao saber que não estava sozinho ao rolar meus olhos em relação ao For Him ou For Her.

 

Avaliação de Womanity:

E aí veio Womanity. Quando eu li sobre o nome e conceito pela primeira vez eu me encolhi um pouco. Entendo o conceito de associar um cheiro com um tipo específico de atração sexual, e aceito que minha perspectiva sobre gênero e perfume esteja certamente influenciada por meus próprios estudos e jornadas pela sexualidade humana, mas depois de uma ostentação de fragrâncias unissex de sua Les Miroirs collection, fiquei surpreso ao saber que Womanity seria a próxima empreitada de Mugler e Clarins. Ainda assim, aguardei impacientemente por uma oportunidade de provar a esquisita combinação de figos e caviar, e fiquei de certa forma cabisbaixo com o quão inofensivo o aroma ficava na minha pele quando eu finalmente consegui um tester na Bloomingdale’s naquele verão. Inofensivo. Não é um termo que eu gosto de usar quando descrevo um perfume de Mugler, mas inofensivo de qualquer forma. Gostaria de tê-lo testado sem o conhecimento da composição, nome ou embalagem, mas sem sorte. Fiquei perplexo com o frasco, o nome do website, e a composição. Figos e caviar quase pareciam uma brincadeira – fruta vermelha e carnal; ovos oceânicos. Ora vamos. Por que não simplesmente nomear o perfume Secret Garden ou Sacred Womb? Tá certo… Womanity. Melhor ainda que o ridículo Not For Men de Sonia Rykiel.

E ainda, eu gostei de como o aroma funcionou na minha pele. Depois da explosão frutada inicial, o perfume conseguiu evitar a agora tendência clichê de perfumes à base de figo e folha de figo, nunca feitos de forma tão perfeita como no revolucionário Figuier Premier de Olivia Giacobetti para L’Artisan Parfumeur. E, em vez disso, resultou em... caramelado? Minha mente divagou para fogueiras de praia no verão e caixas de caramelo salgado. Sim, é para aí que Womanity me leva. E, para mim, isso não tem nada de Secret Garden.

O que é “womanity” afinal? É a habilidade de dar luz a uma criança? É um status de minoria compartilhado globalmente? É um antigo paradigma matriarcal de comando? O website de Womanity permitiu que leitores apresentassem sua própria versão do que significaria ser uma mulher, como se isso tivesse algo a ver com as notas de fato usadas no aroma… porque figo e caviar só podem ser saboreados por mulheres e como as mulheres gostariam que seus homens cheirassem? Então eu decidi usar Womanity algumas vezes (obrigado pelas amostras, Bloomie’s) e fiquei contente com a quantidade de elogios que recebi: “É esse o novo Paco Rabanne masculino?” foi um elogio estranho comparado a “Uau, esse é enjoativamente doce!” Eu trato com carinho o feedback dos meus amigos e parentes; sou sempre o pesquisador qualitativo quando se trata de provocar opiniões sobre perfume.



Ao chegar no meu novo lar na Finlândia, a terra dos lagos e ilhas, fiquei com saudades das minhas compras semanais de perfume e mandei ver no Ebay. Um número de perfumes depois, dois emergiram como sucessos absolutos: O magnífico Fahrenheit Absolute de Dior e, surpresa, Womanity.

Na minha pele, Womanity faz uns truques estranhos. Ele se torna um aquático esfumado, como um acorde de incenso marinho. Jamais senti cheiro de peixe morto ou urina como alguns avaliadores reportaram, nem mesmo sinto figo ou folhas de figo. Não é nem particularmente verde nem tão estranho assim. Em vez disso, eu sinto um aroma viciante, doce e amadeirado que me remete a uma resina cremosa de bálsamo tolu com um toque de suco de laranja e cranberry. Como mencionei antes, há momentos em que ele também me lembra de caramelo salgado, a combinação estranha de sabor frutado sintético e sódio. E depois de umas duas horas, o perfume fica ainda mais esfumaçado – seco, polvoroso, quase amargo. Isso dura somente um breve período antes de o perfume se assentar no seu acorde amadeirado aquático. Alguns avaliadores decidiram chamá-lo de “aquático pink” e eu acho que é uma boa descrição.
 

Então ele é feminino ou masculino? Poderia um cara realmente se dar bem com ele? Bem, se você ainda está questionando essas coisas, talvez eu não tenha sido claro o suficiente. Minhas desculpas. Tudo o que eu posso dizer é que Womanity é uma bomba com nome, embalagem e marketing estranhos, que sensivelmente (???) parece mirar no menor denominador comum e no maior público possível ainda assim mantendo o diferencial Mugler. Julgando pelos comentários no Fragrantica e outros websites, ambos foram ao mesmo tempo bem-sucedidos e falharam. A cor do líquido e o frasco parecem perfeitos para adolescentes góticos enquanto o comercial parece feito para um público ligeiramente mais maduro. É um perfume com um problema de identidade? Talvez. Merece um teste em uma pele masculina? Absolutamente. Talvez pudéssemos deixar de lado o Wo- e –man- e ficássemos apenas com -Ity? Se figo e caviar são Womanity, alguém pode tremer só de imaginar do que o par masculino poderia consistir... Deixarei você com a sua própria imaginação e estou satisfeito ao cheirar caviar com figo.


Potência da fragrância
: Eau de Parfum

Número de vezes testada: 10, de um frasco vaporizador com 80 ml que eu comprei para mim.

Evolução: (Linear/Média/Complexa): Womanity verdadeiramente muda na minha pele, evoluindo em três estágios principais: frutado e ácido; cremoso e salino; e, finalmente, doce, aquático e amadeirado.

Longevidade: (Curta/Média/Duradoura): 8-10 horas a partir de três borrifadas.

Silagem: (Pouca/Média/Muita): Esta fragrância permaneceu nos meus travesseiros, nos meus pijamas e mesmo no ar enquanto eu dormia. Borrifei-o por volta da meia-noite, sonhei ter ganhado uma maratona de compras na boutique da Guerlain em Paris, e acordei novamente com Womanity.

 

Marlen Harrison

Editor-Chefe e Colunista

Dr. Marlen Elliot Harrison é jornalista no segmento de fragrâncias, suas publicações têm aparecido na imprensa internacional e em publicações on-line, tais como Playboy, Men’s Journal, Men’s Health e no The New York Times. Marlen também trabalha como coordenador de escrita no Museu Nacional de História Natural e como professor/supervisor do corpo docente de Literatura para os programas de pós-graduação on-line da Southern New Hampshire University’s. Saiba um pouco mais sobre Marlen em www.marlenharrison.com.

Tradução: Daniel Barros



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Alessandra Vila
Alessandra Vila

Almir, eu adoro usar o Kouros... meu marido tem e eu uso mais que ele.Em mim fica um cheiro adocicado e sempre elogiam quando coloco...mas confesso que aqui em casa o maridão não curte nada nada... hahaha

Aug
17
2016
Tiago Rezende
Tiago Rezende

Sempre tive curiosidade nele e confesso que quando recebi o meu senti uma estranhaza a qual me deixou ainda mais curioso com ele. A primeira vez que usei não foi amor, achei forte e senti que não conseguiria usar de novo. Mas nada como um amor a segunda vista, e já na segunda vez a paixão foi imediata e arrebatadora; que perfume maravilhoso, que evolução e projeção! Um perfume que te provoca sensações, que aguça a sua memoria olfativa, mesmo sem nunca ter conhecido tal situação esse perfume consegue te levar a lugares paradisiacos! Realmente um perfume muito polemico, mas toda vez que uso recebo elogios, na minha pele ele funciona tão bem em temperaturas altas como nas baixas tambem, um que espero que nunca saia do meu top 10!

Aug
10
2016
Almir
Almir

Womantity em homem até é imaginável. Sou louco pra provar, tenho a sensação de que nos daremos bem.
Mas, por falar em transcendência de gênero em perfumaria, o que dizer de uma mulher usando Kouros? Qual se atreve? Onde andará essa figura destemida, imponente, fatalmente livre e desafiadora?
Sou louco pra encontrar uma mulher que o use, que diga que se dê bem com ele.
Sei que talvez seja pedir demais; mas o mundo é tão grande né? E as mulheres geralmente são tão mais desencanadas que os homens em relação a esse lance de perfume masculino x feminino.
Talvez um dia eu ainda encontre esse anjo rebelde, usando tal perfume ou qualquer outro considerado "perfume de machão", mostrando que isso é perfeitamente possível.
Ou talvez eu não encontre. Então, caso seja assim, que isso não passe de um devaneio de minha cabecinha insana...

Aug
06
2016
Haziel
Haziel

Sou um dos que infelizmente nao conseguem se adaptar a essa fragrância. Figo é um dos meus frutos preferidos, seja pelas cores, sabor textura .... Um prato de figos frescos cortados e regados a mel então hummm.

Mas esse Mugler é longe disso! Salgado que lembra um pouco pele, de presença marcante, difícil ... Em mim causa enjoo. Em mim! pois conheço gente que fica extremamente perigosa usando ele.

Lembra um sexo "sujo", quente e perigoso num banheiro de um pub depois de algumas tequilas. ( as vezes "deu match" certo )

Aug
05
2016
petitnose
petitnose

Me apaixonei perdidamente por esse perfume em 2012, testei e não conseguia desgrudar o pulso do nariz. Usei um frasco inteiro e logo comprei outro (não sem antes comprar por erro o Womanity Eau pour Elles, normalzinho que sequer casou com a minha pele).

Nesse segundo frasco, com líquido menos rosa, o metálico se sobressai, incomoda um pouco, e o doce não chega para contrabalançar. Me faz pensar se o perfume ou a minha química mudou.

De todo modo, nunca vou me esquecer dele, continuarei a usar sempre em busca da paixão original.

Aug
05
2016
Ana Sacani
Ana Sacani

Só gostaria de entender porque Harrison considera o slogan do perfume "ridículo". Senti um incômodo terrível lendo o texto, não sei explicar... Como se ele estivesse tentando diminuir a ideia de womanity que o marketing de Mugler criou. Pode ser que eu esteja equivocada, claro.

Aug
05
2016
Bira
Bira

Pronto! Com esse texto do Marlen Harrison, e ótima tradução do Daniel Barros, não há nada mais a se descrever sobre essa obra prima, infelizmente em vias de extinção.
Como extraio de minha resenha sobre ele: uma praia calma e morna, de areia verde claro e marolas doces e rosas.

Aug
05
2016
Andreystos
Andreystos

Coincidentemente o elegi para me acompanhar durante toda a sexta-feira, estava precisando de uma boa revigorada e ele cumpre muito bem essa tarefa (para mim). Uma das melhores criações do mundo perfumístico, uma pena ser tão difícil encontrá-lo. Com certeza um dos "perfumes das minha vida".

Aug
05
2016

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