Matérias primas Os Caminhos Sintéticos Para as Notas de Sândalo

Os Caminhos Sintéticos Para as Notas de Sândalo

03/10/14 05:01:26

por: Elena Vosnaki


Não há forma de negar que um produto natural tal como o sândalo, a árvore sagrada da Índia, esconde uma multiplicidade de atributos vibrantes, espirituais e cheios de alma que o elevam além da gama de produtos aromáticos até ao domínio do bálsamo para os sentidos. Contudo, com a proteção das espécies em perigo de extinção como o Santalum album, desde os anos 1980, especialmente na região do Mysore em Karnataca e Tamil Nadu, a anteriormente inesgotável fonte está praticamente esgotada. Vários sintéticos apareceram com a tarefa de o replicar, muitas vezes com um custo muito elevado, e frequentemente entrendo em alguns "clássicos modernos" venerados.
 

Atualmente muitos destes sintéticos são usados em combinação com as colheitas de árvores de sândalo idênticas às de Mysore cultivadas em solo australiano. Estas são árvores da espécie nativa da Índia e não do diferente, nativo sândalo australiano (Santalum spicatum, tal como o usado em Le Labo Santal 33) que é uma espécie diferente com um perfil de odor diferente, mais forte e levemente fumado, nem da variedade de sândalo da Nova Caledónia (ganhando forte popularidade). Uma das primeiras fragrâncias de sândalo eticamente sustentáveis usando as árvores de Mysore de cultura australiana foi o lançamento da última estação Dries van Noten by Frederic Malle, um perfume suave e leve que foi recebido favoravelmente mas não deslumbrou os fanáticos da nota.

Cortadores e exportadores de sândalo, 1905, Austrália, wikipedia

Alguns sintéticos do sândalo englobam atualmente parte da paleta do perfumista tanto por seus méritos técnicos (eles são formas encapsuladas do efeito de uma essência que seria muito densa e exigente que é incrivelmente complexa na natureza), como por suas facetas isoladas que preconizam uma estética acima das outras, de acordo com a disposição do perfumista. Por vezes eles podem até coexistir como no caso de Guerlain Samsara (até uma certa altura), o belo equilíbrio de natural e sintético num só.

A maioria das companhias produtoras de aromas patenteou suas próprias versões deste precioso material, ainda que em muitos casos a criação é tão antiga que as petentes já expiraram e os materiais são de domínio público.

Os perfumes de nicho com várias interpretações do sândalo em seu nome, tais como Santal Blanc ou Santal de Mysore de Serge Lutens, Santal Imperial de Creed, Tam Dao de Diptyque, L'Artisan Parfumeur Santal, Bond no.9 Chinatown, Cannabis Santal de Fresh, Floris Cefiro ou 1725 Casanova de Histoires de Parfums não se afastaram do uso de substitutos do sândalo. Nem mesmo Bois des Iles de Chanel, adorado por muitos (eu incluída) pela sua confortável impressão de bolinhos de gengibre e biscoitos quentes sobre o chão de madeira de um salão de baile onde mulheres em vestidos de seda e estolas de vison dançam a noite inteira. Outro favorito pessoal é Tom Ford Santal Blush: cheio de curvas e sem travões!

O sândalo é uma atração perpétua, mesmo após todos estes anos: O próximo By Kilian, parte da coleção Asian Tales, Sacred Wood, é de fato um estudo sobre o sândalo, composto pela perfumista Calice Becker.

Entre as notas sintéticas de sândalo,o Polysantol, antiga patente da Firmenich, é bastante popular graças a sua intensa difusão e realista replicação. Também conhecido como santol pentenol devido a sua estrutura, entra em muitas composições de fragrâncias devido ao seu calor em parte herbal, em parte envelhecido. O Beta santalol ou tecnicamente o (-)-(1'S,2'R,4'R)-(Z)-beta-santalol é também uma típica nota de sândalo idêntica à natural. O processo de produzir substâncias organoléticas de sândalo a partir de aldeídos canfogénicos produz o valioso Firsantol, outra petente da Firmenich e um favorito do perfumista e escritor Arcadi Boix Camps. O Levosandol da Takasago apresenta uma mais intensa e austera nota de cedro dentro da típica cremosidade da nota de sândalo.

Ebanol [(1S,2'S,3'R)-Ebanol], uma patente da Givaudan, é reconhecido por sua potência. A Symrise propõe seu Fleursandol que tem uma nota de sândalo muito forte e animálica com elementos florais na superfície.

Outros substitutos do sândalo apresentam várias facetas inesperadas: um bom exemplo é o claramente fumado topo de alguns enantiômeros de HomoPolysantol enquanto outros enantiômeros do mesmo ingrediente ganham aspetos de couro.

Javanol, Ebanol, Sandela, Santaliff (o sândalo de Mysore da IFF), e Santalore são extremamente poderosos e fiéis dentro dos sintéticos de sândalo. De fato, isto poderia explicar o curioso efeito que se experiencia ao trabalhar com eles: basta cheirar uma diluição de 10% para anestesiar o meu nariz por várias horas, um estado do qual eu saí ao espremer um limão fresco. Um perfumista deve ser cauteloso e controlado quando os usa para não terminar tornando o usuário da fragrância final cansado e anósmico. Uma extrema diluição (menos do que 0.5%) é recomendada, pois junto com o Iso-E Super (amadeirado de cedro) e o methyl ionone (violeta) estas notas causam uma rápida fadiga nasal.

Um recente avanço é uma mistura sintética que cheira a sândalo nomeada "HipNote Sandalwood", composta pela Tru Fragrance (antes Romane Fragrances),  e é alegada pela companhia produtora como sendo a escolhida pelo perfumista Harry Fremont da Firmenich: “O uso de substitutos sintéticos no mundo das fragrâncias, como aqueles encontrados em 'HipNote Sandalwood' e em muitos dos lançamentos da temporada, é essencial na ajuda aos esforços para a sustentabilidade, ajudando a assegurar que o processo de desenvolvimento de fragrâncias não destrói os recursos naturais. Ao usar estas misturas sintéticas, somos capazes de eliminar quaisquer alergenos que se encontrem na natureza, criando uma consistência nos diferentes lotes da mesma fragrância,” acrescenta Amy Braden, diretor de desenvolvimento de produto da Tru Fragrances.

planta do sândalo, wikipedia

Mais do que preocupações com as alergias ou o desaparecimento dos recursos naturais, a consistência é aqui a palavra mágica. Um produto produzido em massa, como um perfume é inevitavelmente (a menos que esteja fazendo o seu próprio perfume ou tenha um artesão perto de si produzindo um para si), não pode cheirar diferente de lote para lote. Os consumidores não reagem bem a estas mudanças.

A busca de substitutos do sândalo continua, com várias patentes de empresas japonesas a caminho, e só vai acelerar nos próximos anos apesar das fazendas de sândalo eticamente sustentáveis na Austrália (afinal, é apenas uma fazenda).

Elena Vosnaki

Elena Vosnaki é historiadora e escritora sobre perfume. É da Grécia e escreve para o Fragrantica. É a fundadora e editora do Perfume Shrine, um das mais respeitadas publicações independentes online sobre perfumes que contém resenhas de fragrâncias, entrevistas à indústria, ensaios sobre materias-primas e história do perfume, vencedora do Prémio Fragrantica Blog Awards e finalista em numerosos concursos e prémios de blogues.

A sua escrita foi reconhecida nos Prémios Fifi Awards para Excelência Editorial em 2009 e ela também colabora com publicações em todo o mundo.

Traduzido e editado por Miguel Matos (migueldematos).

 



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