Matérias primas O Fascínio do Couro: um Género de Perfume Como Nenhum Outro

O Fascínio do Couro: um Género de Perfume Como Nenhum Outro

10/13/13 05:22:45 (2 comentários)

por: Elena Vosnaki

"Existem três idealistas: Deus, as mães e os poetas!
Eles não procuram o ideal em coisas completas—eles o encontram no incompleto."


Este aforismo do boémio Peter Altenberg encapsula perfeitamente o apelo magnético dos objetos artísticos que requerem nossa própria adição poética para fazer com que ganhem vida nos nossos corações e nas nossas mentes. Ainda que os perfumes sejam em grande medida um assunto de design e artesanato, o toque pessoal que o utilizador adiciona cria um elo inextricável entre forma e substância, entre o ideal e o real. As fragrâncias imbuídas em notas reminiscentes de couro vêm com seu próprio subconjunto completo de atributos: um de sensualidade, outro de espiritualidade, baseados na fantasia em todas as nuances que o termo engloba. Eles escarrancham a fronteira eternamente colocada entre "evitamento" e "aproximação," um conjunto difícil mas recompensador de perfumes com várias formas, que se posicionam algures separadamente dos seus parentes "chypres" (de acordo com a Sociedade Francesa de Perfumistas, eles formam sua própria "família de fragrâncias," ainda que não seja uma muito populosa) e que mais recentemente se aproximam e até invadem a fronteira dos orientais em muitas das interpretações mais suaves disponíveis no mercado.
 


As fragrâncias de couro (parfums cuir, do termo francês para couro) formam uma vasta área da mente, mais do que um segmento de essências colocadas em fila no órgão de perfumista. Elas podem evocar o interior de um carro novo de luxo, marroquinaria refinada e deliciosos sapatos de luxo com aquele suave toque amanteigado que tanto amamos, um casaco de motociclista gasto pelo tempo, vestuário fetichista, a Catwoman, parafernália equestre ou camurça maleável para mil usos diferentes; resumindo, percorrendo a gama desde dura a suave e depois, de tratada a crua, de luxuosa a utilitária. O couro é tão luxuoso como subversivo, evocativo de riqueza E rebeldia. Nas palavras de Ron Burgundy em Anchorman, "Tenho muitos livros encadernados em couro e meu apartamento cheira a mogno rico." Há algo de sofisticado acerca deste cheiro feito pelo homem.
 

Não existe verdadeiramente uma "essência de couro" disponível para perfumistas, extraída das peles, mas antes uma combinação de essências e materias aromáticas tais como quinolinas, castóreo, bétula, óleo de cade, ládano, saffraleina e afins, que resultam numa "nota de couro" nas fragrâncias. Portanto, é justamente recomendado abordar estes perfumes de um ponto de vista da fantasia. É inegável que a maioria das mulheres têm um intenso caso de amor com seus sapatos (e suas carteiras num nível inferior) e muitos homens heterosexuais partilham este fascínio de forma algo sexualizada. Também não é coincidência que os saltos altos pareçam fálicos e as carteiras sejam símbolos dos genitais femininos nas teorias clássicas psicanalíticas. Uma prostituta do século XIX disse uma vez que alguns de seus clientes desejavam o cheiro de sapatos novos no quarto, e que ela estava acostumada a obter o perfume desejado ao colocá-los por momentos sobre a chama de um candelabro” [Havelock Ellis, 1894, Sexual Selection in Man]. Claramente o próprio material com suas notas animais pungentes chama em nós um instinto primário que é exprimido também no mais antigo ato humano. Mas a história tem uma forma de providenciar pequenos pormenores que preenchem as falhas no tecido da estória.

A nota de couro, embora idolatrada em paixões privadas desde a antiguidade e registada como estimulante em obras de autores libertinos, entrou realmente na consciência dos fabricantes de perfumes no século XIX, a conta-gotas desde as paixões especializadamente sexuais até à burguesia mainstream que estava acostumada a comprar em casas como Eugene Rimmel, L.T Piver e Guerlain.

Mas antes façamos um desvio.

O que começou como um meio primitivo de conforto e proteção do frio, assim como esconderijo da genitália de nossos antepassados, se tornou, nas antigas civilizações, especialmente gregas e romanas, em símbolo de virilidade, trabalho e batalha. Curtir as peles as tornava mais duráveis e maleáveis. Os Romanos tinham duas maneiras principais de curtir peles, uma das quais era mineral, ou "curtir com pedra-ume" (que não era realmente curtir) o que involvia mergulhar a pele numa solução de alúmen e sal. As peles preferidas eram gado, porco e ovelha. Sandálias de couro eram certamente o item mais memorável e util, para o qual a madeira nunca serviria—e até hoje é a imagem mais referenciada de materiais de couro na bacia do Mediterrâneo. Os árabes maceravam as peles com materiais muito pouco desejáveis, tais como bosta de vaca e urina, mas cujos resultados tornavam a pele muito maleável e boa para a manufatura de vestuário refinado e marroquinaria.


A história perfumada do couro começa verdadeiramente a ganhar velocidade no século XVI, quando os tanoeiros começaram a perfumar camurça com essências destiladas de flores e ervas e, como passo final, as mergulharam em civeta e almíscar. Isto era conhecido como Peau d’Espagne (pele espanhola). A camurça é por si só um material muito sensual: sedosa, maravilhosa de se sentir na mão, contribuindo com seus tons de couro, dando suavidade e profundidade. A ubiquidade da camurça para as luvas da aristocracia tornou-se referência de um valorizado buquê, popularizado pelo Grêmio de Maitres Gantiers et Parfumeurs. A tradição das luvas perfumadas foi inaugurada na corte francesa por Catherine de Medici, a partir da sua cidade-natal Florença e seu perfumista pessoal (e fazedor de venenos!), Rene le Florentin. Os Mouros em Espanha tinham influenciado o país com suas composições fragrantes que eram evocativas de florais ricos do sul, tais como o jasmim, e seu amor pelo almíscar, sagrado aos olhos do profeta. Portanto, foi então que os aromas de couro espanhol apareceram, com Essence Peau d'Espagne de Pinaud, Paris, entre os sobreviventes no século XIX.
 

A composição era intensamente florel, animálica, muito muito almiscarada mesmo e muito perto do odor natural da pele de uma mulher, de acordo com muitos perfumistas, dando-lhe uma gosto adicional que poderia fazer disparar a imaginação. Existe informação contraditória no que diz respeito aos ingredientes usados, mas sabemos que no século XX a "receita" da English Leather de Roger & Gallet (1895) e Santa Maria Novella (1901) continha styrax, gerânio, fava tonka, cedro e baunilha entre outras coisas. Truefit & Hill e Geo F. Trumper ainda produzem aromas de  "peau d'Espagne", fragrâncias que não lembram imediatamente couro mas antes evocam um ambiente luxuoso e intenso. Ainda que oficialmente a primeira "essência de couro" seja supostamente Royal English Leather (1871) de Creed para o Rei George III, que, diz-se, amava tanto o cheiro de suas luvas que pediu qie fizessem um produto corporal com o mesmo perfume, a teoria perpetuada pela Creed cai por terra. Na era georgiana a moda das luvas perfumadas estava a passar de moda, assim como dos "pomanders", apesar de os adornos perfumados tais como as perucas empoadas continuarem florescendo, com aromas frescos especiados muito em voga para homem. Nos tempos dos períodos Regência e Império havia uma corte com a anterior moda animálica de aromas intensos e tanto homens como mulheres preferiam a Eau de Cologne. Para juntar a isso George III, um homem terra-a-terra para todos os efeitos, independentemente da "loucura," apoiava os fabricantes de origem inglesa.

Temos que ter em mente que os perfumes do tipo "Spanish leather" compreendem notas que têm sido tradicionalmente usadas para perfumar couro em vez de serem as notas de couro a sua inspiração inicial, tal como se disse antes acerca da camurça. É um ciclo: o material que inspira a tendância está ausente e no seu lugar está a evocação produzida através de um "empréstimo", uma metáfora conotativa. George Bataille se sentiria em casa!

A invenção revolucionária da quinolina em 1880, um químico que imita a pungência da curtimenta das peles animais, deu início a todo um novo estilo. A tendência de fragrâncias tipo Cuir de Russie (Couro Russo), trazidas por E.Rimmel em 1886 e propostas por Guerlain também no mesmo período) foi uma coincidência natural; um novo material ou técnica tem sempre pioneiros ansiosos por explorá-la de maneiras criativas sem necessidade de qualquer "história" para justificar sua curiosidade.

Diz a lenda, como sempre com perfumes inteligentes, que o Cuir de Russie nasceu quando um guerreiro Cossaco, galopando pela infindável estepe russa, inventou "a ideia de esfregar suas botas de couro com casca de bétula para as impermeabilizar."

A supremamente bonita ilustração no frasco da L.T Piver certamente tomou sua inspiração a partir desta lenda...

Vários perfumes estilo Cuir de Russie recentes, contudo, meramente se inspiram na bétula, usando isobutilo de quinolina para conseguir a nota de alcatrão, que tradicionalmente se relaciona com a bétula e a gordura de animais marinhos "cozinhada" em grandes panelas ao ar livre. Todos pegaram esta carona, produzindo nada mais nada menos do que 30 diferentes tipos de fragrâncias "Cuir de Russie" de diferentes casas, desde o fin de siècle até aos anos 1950, mas especialmente quando a Revolução Russa de 1917 resultou numa maré de emigrantes por toda a Europa. O couro usado para vestuário militar no exército russo, e em especial para botas, ganhou uma certa aura de autoridade e tinha associadas imagens de dureza e virilidade, mas também uma grandiosidade decadente com a qual as sociedades europeias anti-comunistas simpatizavam; "viril" tem até uma associação etimológica com o Latim virtus, que significa virtude. Estes eram, claro, traços altamente cobiçados pelos homens que queriam encarnar tais imagens. Mas no tempo da emancipação das mulheres no início do século XX, quando os perfumes de couro tiveram seu auge, eles eram também altamente cobiçados pelo sexo oposto.

Uma plêiade de belos e perturbantes perfumes femininos foi catapultada no mercado: Tabac Blond de Caron (1919) foi o primeiro perfume de couro "andrógino" especificamente dirigido a mulheres de Ernest Daltroff, ele mesmo russo, e concebido para mascarar o odor dos cigarros, na época um sinal de moral duvidosa. Chanel Cuir de Russie (1924), composto por Ernest Beaux como homenagem ao romance de Coco com o Príncipe Dmitri e sua coleção russa, era rico em raiz de íris. Outra maravilha de Caron era En Avion (1929). Scandal de Lanvin (1933), nas palavras do famoso perfumista Guy Robert era "uma bela flor entalada numa carteira nova em couro."

Armand Petitjean, fundador da Lancôme e empresário perspicaz, respondeu ao ataque de Lanvin batizando seu novo perfume de couro Révolte anos mais tarde (seria subsequentemente relançado mais tarde como "Cuir," aludindo ao género, e conquistando o coração de muitos colecionadores de perfume na sua recente reedição nas edições Collection da companhia). O chicote de Bandit (1944) foi a a oferta de Piguet e da perfumista Germaine Cellier para as lésbicas, áspero nos aspetos verdes e ácidos da quinolina. Cabochard (1949) de Grès, é uma laranja espinhosa com flores de uma era nostálgica em tons sépia.

Os loucos Anos Vinte preferiam o modelo de la Garçonne (nomeada a partir do romance de 1922 escrito por Victor Margueritte, que era protagonizado por uma mulher sexualmente emancipada procurando a gratificação sexual fora das normas, mas pré-existente como um termo na obra do escritor do século XIX Joris-Karl Huysmans); essencialmente este era o tipo de mulher que os americanos chamavam de "flapper".

Escolher uma fragrância subversiva para acompanhar um estilo de roupa e um comportamento andrógino não era um choque. As mulheres partilhavam as colônias dos homens, tais como Vincent Roubert Knize Ten (apadrinhado por Marlene Dietrich, Deus abençoe sua austera imagem andrógina). Apesar de Knize Ten ser um outro tipo de perfume—o tipo de couro espanhol—ele tem o mesmo fascínio animálico que perdura até aos tempos modernos. Mesmo depois de a moda se tornar mais feminizada, como sempre acontece em eras de crise econónica internacional, após o Crash de 1929, os perfumes de couro continuaram a ser um culto de nicho que parece nunca definhar, sendo testemunha da atração do aroma. Kolnisch Juchten, denotando a linhagem da cidade e Colônia na Alemanha, ainda é produzido por Farina Gegenueber, a mais antiga marca alemã de colônia fundada em 1700 por um proprietário de uma drogaria italiana. Farina fez seu próprio Cuir de Russie (Russisch Leder) de Hugo Janistyn em 1967. Para muitos, contudo, Kolnisch Juchten, uma fragrância alemã, é como o couro russo deveria realmente cheirar!

Discretos tons de couro têm se mantido em muitas fragrâncias que não são "cuir", normalmente na família de perfumes chypre/amadeirado floral ou cítrica, Muitas vezes em clássicos bestsellers como na versão original de Miss Dior ou Vol de Nuit de Guerlain, Chanel No.19, ou em perfumes de culto mais esotéricos como Eau d'Hermès ou Balmain Jolie Madame. E algumas fragrâncias de couro mais alternativas compostas em décadas anteriores ainda são produzidas, por vezes de forma mais fiel, outras vezes nem tanto, tais como Estée Lauder Azurée, Caron Yatagan, Diorling de Dior (na sua distribuição mais esotérica), Cabochard de Grès e Bel Ami de Hermès. Outras sucumbiram, caíndo em favor de mega-tendências que precisaram de mais espaço nas prateleiras, como o suado La Nuit de Paco Rabanne, ou o desrespeito criminoso do cliente mainstream pela beleza pura (pensemos na bondade amanteigada do agora impossível de encontrar Doblis da Hermès, sem dúvida o melhor couro de sempre).

Mas são as modernas marcas de perfumes de nicho que mais se alimentam de armas de couro oferecidas aos aficionados que, como fetichistas do século XIX, esteticizam suas compras sensualistas e buscam uma ligação espiritual, presente na ideia do objeto mais do que no objeto em si, como qualquer fetichista que se preze lhe dirá. O "movimento" gay leather cujos fãs amam "ver, cheirar, sentir, ovir o chiar, e até saborear" o material (nas palavras de cuirmale.nl) saiu do armário também. De certa forma a sub-cultura se alimenta e se expande.

Black de Bvlgari nem sequer tenta esconder sua estranheza, orgulhosamente se posicionando entre os florais-frutados mainstream de tutu, exibindo toda sua glória de borracha. Dzing! de L'Artisan Parfumeur, embora fazendo lembrar o eflúvio baunilhado de uma antiga livraria, tem uma agradável nota de camurça e serradura no fundo, que para muitos amantes do perfume foi uma introdução para explorações mais selvagens. Para aqueles que apenas têm acesso ao circuito mainstream, Kelly Calèche (Hermès) é um floral de couro para debutantes, inspirado pela visita de Jean Claude Ellena aos cofres veneráveis de selas em couro; e cheiro é "surpreendentemente floral."

Seria fútil tentar catalogar todos os perfumes contemporâneos de couro, tantos que eles são e tão variantes. Será suficiente dizer que eles se encontram na fronteira entre o tipo espanhol "almiscarado, animálico" (Cuir Mauresque de Lutens, Parfum d'Empire Cuir Ottoman, Ramon Monegal Mon Cuir, Bottega Veneta), o grosseiro russo do tipo "alcatrão" (Lonestar Memories de Tauer, Le Labo Patchouli 24, Parfums Retro Grand Cuir) e no tipo "camurça" suave que é na verdade um estilo orientalizado construído com notas baunilhadas, ambaradas e frutadas (Daim Blond de Lutens, tal como Boxeuses, Keiko Mecheri Fleur de Peau, Guerlain Cuir Beluga, Ramon Monegal Cuirelle, Tuscan Leather de Tom Ford). E apesar de alguns deles seguirem a estrutura clássica do seu genero, outros brincam com isso.

No final, isso não interessa. Como todos os objetos que pertencem ao nosso idealismo, é necessário descobrir o que resulta, levando a mente da realidade para a fantasia e a elevação do espírito. E embora Platão não tenha feito a apologia do materialismo da fragrância, seu sistema teórico tem certamente pernas para andar no domínio do gosto pelo perfume.
 

Elena Vosnaki

Elena Vosnaki é historiadora e escritora sobre perfume. É da Grécia e escreve para o Fragrantica. É a fundadora e editora do Perfume Shrine, um das mais respeitadas pubçlicações independentes online sobre perfumes que contém resenhas de fregrâncias, entrevistas à indústria, ensaios sobre materias-primas e história do perfume, vencedora do Prémio Fragrantica Blog Awards e finalista em numerosos concursos e prémios de blogues.

A sua escrita foi reconhecida nos Prémios Fifi Awards para Excelência Editorial em 2009 e ela também colabora com publicações em todo o mundo.

Traduzido e editado por Miguel Matos (migueldematos).

 



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Viajei longe agora, sem sair do lugar. Brilhante!

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MathKortz
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Mas que senhora aula! Eu achava que a essência de couro de fato existisse, mas aqui descubro que é resultado de uma mistura de várias outras essências!

Mas fico pensando que se a água utilizada na lavagem do couro nos cortumes fosse preservada, e depois destilada obteríamos algum tipo de "óleo" aromático natural de couro, sem ter que necessariamente matar mais animais para isso...

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