Matérias primas O Cheiro Proibido é Doce: IFRA e a Segurança das Fragrâncias

O Cheiro Proibido é Doce: IFRA e a Segurança das Fragrâncias

06/27/16 05:40:18 (2 comentários)

por: Matvey Yudov

As pessoas dão muita atenção à segurança e proteção e o campo da perfumaria não é uma exceção, é claro – quase ninguém gostaria de espalhar carcinogénicos sobre a pele diariamente. As discussões sobre os perigos da perfumaria resumem-se, na sua maioria, em duas afirmações que mesmo em consideração superficial parecem ser mutuamente exclusivas: por um lado, a moda pouco saudável do estilo de vida saudável e a paixão por tudo aquilo que é “100% natural e bio-orgânico” e, por outro lado, a teoria da conspiração vociferando contra a ganância corporativa constantemente banindo algo e assim retirando aos consumidores seus materiais favoritos.

Antes de começarmos a falar sobre os standards de segurança na perfumaria, gostaria de relembrar alguns fatos fundamentais. Eles podem parecer frases retiradas de um manual para muitos, mas mesmo asim gostaria de me certificar de que falamos todos a mesma linguagem.

I.   Não existe tal coisa como “veneno absoluto” ou “substância absolutamente inofensiva”. Esta ideia foi expressa explicitamente há 500 anos por um químico suíço chamado Paracelso:

Tudo é veneno e nada está isento de veneno. Apenas a dose define se uma coisa não é veneno”.

Também já se deve ter deparado com a frase “tudo é veneno e tudo é remédio, é apenas uma questão de dose”. De fato, não existem substâncias inofensivas. Para cada substância existe uma dose quasi-legal ou LD50 – a quantidade requerida para matar metade do grupo de teste. Por exemplo, para o sal comum é 3 gr por 1 kg de peso corporal. Isso significa que 250 g de sal pode ser uma dose letal para um adulto – apesar de comermos diariamente 10-30 gr de sal em média e isto é apenas 10 vezes menos do que a dose letal. Existe até um recorde de um absurdo caso de morte causado por overdose de água – uma mulher bebeu muito rapidamente vários litros de água num radio-show de entretenimento.

E o oposto é igualmente verdade – qualquer substância demonstra suas propriedades físicas apenas acima de um determinado nível de concentração. Espero que não se importe de eu não me alongar em homeopatia ou “memória de água” e afins, mas há uma exceção importante aqui – algumas substâncias, chamadas venenos cumulativos, podem-se acumular no corpo. Por exemplo, se pesados vapores de mercúrio entrarem nos pulmões, eles ficarão lá para sempre. Mas não entre em pânico – nenhum destes materiais é usado na perfumaria.

II.   A frase largamente popularizada “o natural é saudável” não resiste à crítica. Natural e saudável não são sinônimos. Mais, o natural nem sempre é seguro. Cicuta, curare, ópio, toxina botulínica, estricnina – são todas elas coisas 100% naturais e bio-orgânicas.

Mas na perfumaria isto é ainda mais complicado, porque todos os óleos essenciais e absolutos são complexos, misturas de policomponentes com centenas de ingredientes, e sua composição quantitativa e qualitativa é sempre mutável. Por exemplo, dependendo do mês da colheita, o óleo essencial de bergamota pode conter entre 5 a 30% de linalool. E existem muitos outros fatores deste tipo. O material sintético é normalmente ou um componente individual relativamente puro ou uma mistura relativamente simples, enquanto um óleo essencial natural pode ter entre os seus numerosos componentes um único com algumas propriedades desagradáveis e pode ser difícil retirá-lo sem consequências para o cheiro.

Exatamente de que forma podem os componentes aromáticos fazer-nos mal (se os usarmos indevidamente)? Muitos deles podem ser tóxicos e neurotoxicos, carcinogénicos, teratogénicos, podem causar fotosensibilidade  e alergias.

Vejamos como os materiais de perfumaria podem ser banidos ou o seu uso ser limitado. Antes de mais, existe a lei local e os diferentes padrões de cada estado. Em quase todos os países do mundo existe uma certificação para entrar no mercado oficial com perfumes. É assim que funciona na Rússia, por exemplo (documento aqui). A lista inclui 1328 substâncias, exóticas em vários graus e na maior parte altamente tóxicas, mas quase não há ingredientes de perfumaria. Basicamente, é uma limitação do género “não podem haver botões nem reforços de metal numa sopa”. Mas a ideia geral é clara: devemos ser assegurados de que nossa fragrância favorita não tem nitrato de estrôncio dentro (um componente do fogo de artifício), nem “tecidos celulares ou componentes de origem humana” – e tais ideias andaram no ar.

É certamente verdade que os standards diferem notavelmente em diferentes países. Os standards europeus são no seu todo mais restritos do que os russos e até do que os americanos. Cada estado tem de decidir por si o que os seus cidadãos podem e não podem fazer. Um simples exemplo de nossa vida diária: durante anos e anos as pessoas mais velhas na rússia têm comprado e tomado corvalol ou valocordin livremente e sem sombra de dúvida, enquanto na europa tais remédios, contendo barbitúricos, são tratadas como narcóticos – isso por uma boa razão – e só os consegue obter com uma rígida prescrição. Além disso, se quiser lançar suas fragrâncias apenas o mercado nacional, oficialmente terá mais liberdade do que se tentar certificar seus produtos na UE.

Um evento incontornável para a segurança e controlo da composição dos produtos de perfumaria aconteceu em 1973 em Geneva. O mercado internacional de perfumaria não estava satisfeito com a abordagem unilateral e burocrática das autoridades estatais e seus membros decidiram criar uma organização responsável pelos assuntos de segurança em perfumaria. Eles queriam honestamente produzir fragrâncias inquestionavelmente seguras e, consequentemente, poupar-nos e a si mesmos a problemas, de que ninguém precisa, assim como despesas correspondentes. Foi assim que foi fundada a International Fragrance Association (IFRA). Eles pediram ajuda ao Research Institute for Fragrance Materials, Inc. (RIFM, fundado em 1966).

Quem são os fundadores e membros permanentes da IFRA? As mesmas organizações conhecidas: Firmenich, Givaudan, IFF, Robertet, Symrise, Drom e Takasago International. Eles pagam pelo trabalho da RIFM, cuja equipe internacional de especialistas (dermatologistas, toxicologistas, patologistas, analistas de segurança ambiental), não ligados à indústria de perfumaria, estuda e testa ingredientes de perfumes.

O objetivo é elaborar standards de uso dos diferentes materiais, com análises detalhadas de cada ingrediente e um veredito sobre como usá-lo, ou se é possível usá-lo de todo, na perfumaria e cosméticos. O uso de alguns materiais pode ser seriamente restringido (por exemplo a apenas 0,01% no produto final para o methyl-heptincarbonato (Folione), a folha de violeta em Dior Fahrenheit), ou mesmo totalmente proibido como, por exemplo, o Almíscar de Ambrette - Nitro-musk, popular na primeira metade do século passado.

 

A IFRA tem uma série de ramos locais – existem organizações de alguma forma ligadas a ela em vários países: FFAANZ na Austrália, AIFRA no Brasil, CISF na Colômbia, JFFMA no Japão, ANFPA no México, FFAS em Singapura. Existe também a IFRA Reino Unido, IFRA América do Norte e IFRA Europa. Além disso, na Europa temos o DVRH na Alemanha, PRODAROM na França, Federchimica Assospecifici na Itália, NEA na Holanda, AEFAA em Espanha e AREP na Turquia. Todos os membros devem seguir escrupulosamente todas as instruções da IFRA. No total, as organizações controaladas pela IFRA representam 90% do mercado de perfumaria.

Para cada material banido ou restrito existem resultados de pesquisas relevantes, publicados num jornal de relevância para o meio. Qualquer pessoa pode consultar todas as publicações no website oficial ifraorg.org. Além disso, todos os anos são lançadas emendas com os standards renovados, de acordo com os resultados das últimas pesquisas. Portanto, alguns materiais deaparecem da paleta do perfumista definitivamente e muitos perfumes existentes sofrem sérias transformações – a fórmula é alterada e ajustada aos novos standards da IFRA. Isto e sempre doloroso – por vezes os perfumistas perdem mais tempo a transformar as fragrâncias antigas num esforço de as espremerem na cama de Procusto da IFRA, do que a criar novas fragrâncias. Os bloggers de língua inglesa até inventaram, um novo termo “zombie perfumes” - aqueles que já estavam em tempo de serem condignamente enterrados, mas que ainda são produzidos numa forma muito miserável, apresentando pouca semelhança com a sua desaparecida magnificência e brilho. Mas seria verdadeiro dizer que a IFRA não é a única razão de tal “zombificação” – muitas vezes acontece que os produtores decidem “enquanto estão com a mão na massa” substituir alguns ingredientes mais caros.

Existe uma idea subjacente que todas as restrições e banimentos da IFRA são impostos para servir os lobbys de interesses dos grandes produtores de ingredientes de perfumaria e a maior parte dos banimentos são obviamente feitos por contra-segurança – tínhamos fragrâncias maravilhosas e toda a gente estava segura e a salvo e feliz. Luca Turin escreve em seu livro que ele nunca ouviu falar de alguém ter morrido por usar Guerlain Mitsouko, mas pelo contrário ele tem a certeza de que muitas pessoas nasceram por causa dele.

Tendo a concordar com ele, mas a história pode nos dar imensos contra-argumentos: os Romanos costumavam adoçar o vinho com acetato de chumbo ou açúcar de chumbo – e penso que não preciso explicar porque eles não deviam fazê-lo. Apenas há um século atrás, as pessoas pensavam que as drogas de rádio eram benéficas, e até em minha infância soviética tentávamos tratar quase todas as doenças com uma combinação de amydopyrine, carvão ativado e permanganato de potássio.

Voltando a Mitsouko e outras fragrâncias do passado, ouvi mais do que uma vez estórias de alguém que comprou um frasco de um longamente desejado chypre vintage (por vezes metade da composição é óleo essencial de bergamota) e tem uma insolação. Este é um efeito de fotosensibilidade, causado pelo bergapteno e alguns outros terpenos do óleo de bergamota. Hoje em dia é usada uma bergamota sem bergapteno, ou uma base substituta.

Como em qualquer organização com poderes para banir, a IFRA por vezes tem de tomar medidas pouco populares, o que causa agitação no mundo da perfumaria – desde realizar petições para cancelar as últimas emendas ou a proibir toda a organização. Um dos maiores mitos sobre a IFRA é que ela bane ou limita a doses minúsculas os materiais naturais, forçando toda a gente a usar substitutos sintéticos que ela própria produz. Mas na vida real tudo é bem mais complicado e se uma fragrância não cumpre os standards da IFRA, o perfumista tem de arcar com os problemas por si próprio. Por vezes é lançada uma base de uma fragrância que substitui ingredientes limitados, mas é um gesto de boa vontade. No que diz respeito ao banimento total de matérias naturais, isso me lembra o famoso comentário de Mark Twain em sua necrologia no New York Journal: “O relatório de minha morte foi um exagero”. Basta vermos a lista integral de matérias – 191 no total, total banimento – apenas 77, das quais apenas 8 (!) são naturais: óleo de alantroot, óleo de folha de boldo, óleo de chenopodium, óleo de santolina e outros. Tentei descobrir pelo menos uma menção de uma fragrância com óleo de folha de boldo – mas em vão.

A margem para alguns materiais é uma pura convenção. Por exemplo, o nível permitido para o absoluto de jasmim sambac é 4% no produto final – note-se que todas as limitações são definidas para o produto final com um solvente. Assim, para uma eau de toilette com uma concentração de 10% deverá haver 40% dele no concentrado. A fórmula original de Chanel No. 5 tinha 4% de jasmim (no concentrado, não no produto final) e o detentor do recorde absoluto Robert Piguet 1945 tinha 7% de jasmim. Esta é uma quantidade louca – com os preços de $15,000 por quilo de absoluto, tal custo pareceria irreal até para os mais pretenciosos produtores modernos. Provavelmente, o mais famoso e icônico soliflore de jasmim Serge Lutens A la Nuit tem apenas 0.35% de absoluto de jasmim e nos padrões modernos isso é muito.

Desde os anos 50, para 80% das novas fragrâncias foi criada uma nota de jasmim com componentes componentes baratos sintéticos como acetato de benzila. Infelizmente, à medida que o custo de produção aumenta, o corte de custos é inevitável e a IFRA muitas vezes se torna um útil bode expiatório, permitindo justificar todas as metamorfoses das fragrâncias clássicas do passado.

Espero que este artigo ajude a ter uma ideia mais clara daquilo que está acontecendo. É claro, sem regulamentações restritas, baseadas na investigação, a indústria da perfumaria se tornaria caótica, mas por outro lado tenho mesmo muita pena de algumas fragrâncias do passado, que nunca mais veremos ou cheiraremos em seu estado original.


 

Mat Yudov

Mat Yudov é um químico, perfumista e músico. Mat é um investigador e especialista na química de materiais aromáticos. Ele se formou na Universidade Estatal de Moscou "Lomonosov" em 1999. Ele escreve no popular blogue de perfumes leopoldray.blogspot.com (em russo).

 

Tradução: Miguel Matos

 



Anterior Matérias primas Seguinte


Advertisement

migueldematos
migueldematos

Erros corrigidos. Mil perdões :)

Jun
28
2016
Haziel
Haziel

Artigo muito bom! Muito!

Interessante, cheio de informação! (apenas com alguns erros de tradução hahaha)
Por mais artigos assim aqui no Fragrantica - quimicamente falando.
Sério, não sabia sobre a concentração dos absolutos. Pra mim era uma medida da matéria "pura" sem diluentes ... interessante.

Como ele disso no ultimo paragrafo talvez isso explique o que vem acontecendo com as fragrancias: "mesmo muita pena de algumas fragrâncias do passado, que nunca mais veremos ou cheiraremos em seu estado original.", como no Dior Homme Intense por exemplo.

Embora eu duvide que seja "apenas" isso, claro que o fator lucro pesa muito em reformulações... até prq se for culpar apenas as reações alérgicas chega a ser descabido. Afinal é impossível mapear e isolar os sítios de ligações de receptores alérgicos de todo o corpo humano.

Mas é interessante essas medidas da IFRA, por exemplo ela já alertou sobre sais de alumínio (cloreto e cloridrato) utilizado em simples desodorantes aerosóis podem ser cancerígenos. E por "incrível" que pareça não é difícil encontrar em produtos vendidos no brasil.

ps1: " devemos ser assegurados de que nossa fragrância favorita não tem ...nem “tecidos celulares ou componentes de origem humana” – e tais ideias andaram no ar."
E pensar que no lançamento daquele perfuminho daquela lady gaga ela afirmava ter semem humano na composição ... ações ridícula de uma pessoa ridícula ¬¬

ps2: Como assim na Russia as pessoas podem comprar valocordin sem receita médica? aquilo é igual a fenobarbital! da pra sedar até um cavalo hahaha

Jun
27
2016

Adicione sua resenha

Torne-se um membro desta comunidade perfume online e você poderá adicionar seus próprios comentários.

Advertisement

Advertisement

Marcas populares e perfumes: