Matérias primas Misturando o Imundo com o Fragrante: O Mistério do Indol

Misturando o Imundo com o Fragrante: O Mistério do Indol

05/22/14 03:16:13 (3 comentários)

por: Elena Vosnaki

"The Foul and the Fragrant" é um tratado do historiador francês Alain Corbin que aborda o saneamento das cidades europeias nas décadas que precedem a revolução industrial. Mas seu título contrastante faz sentido quando tentamos identificar a estranha e constrangedora atração por uma nota muito particular na perfumaria: o indol, presente tanto em flores como nas fezes humanas. Se ao chegar aqui seu apetite foi suprimido, não teha medo. A perfumaria é uma arte que joga com as nuances e as escalas da perceção.

Quando os citrinos se misturam com a transpiração aparece uma espécie de quiralidade que cancela ambas a coisas, da mesma como uma imagem refletida de um espelho para outro dá uma qualidade distorcida originando uma nova apreensão do objeto. Quando o indol, naturalmente presente principalmente nas flores brancas, se revela em seu frasco de perfume, podemos lembrar como quando vaporizamos o mesmo perfume num banheiro acabado de usar, a sinergia da fragrância com o cheiro ambiente se mistura e se torna numa nova entidade, definitivamente mais floral do que fecal. Mesmo assim, o fascínio permanece: porque queremos usar uma fragrância que vagamente nos lembra do #2? A resposta é fácil: porque alguns dos melhores perfumes existentes são indólicos.

Indol é um componente aromático heterocíclico orgânico que contém um anel benzênico de seis carbonos fundido com um anel de pirrol com cinco membros de nitrogênio (não se preocupe se não entender muito de química, tudo fará sentido dentro de um segundo); portanto os componentes que contêm um "anel de indol" (sequância de moléculas) são assim chamados de "indoles".

O que significa isso? Isso tem um cheiro "estranho". Mas não necessariamente de fezes, ao contrário da linguagem comum do conhecimento dos perfumes perpetuada nos fórums! A química orgânica em seu todo não tem nada contra chamar nomes literalmente, em especial quando se trata de componentes malcheirosos: temos o cadaverine (para o cheiro de cadáver), putrescine (para o odor de lixo), skatol (do grego σκατό, que significa literalmente merda), ou ácido butírico (o cheiro de manteiga rançosa do grego βούτυρο/manteiga). A nomenclatura da química orgânica é bem direta, mas o indol parece ser uma exceção. De fato, o nome é derivado da história: deriva do tratamento de tinturas índigo.

O indol puro, aquele que realmente está presente nas fezes e também de forma mais reduzida nas flores brancas (tais como -predominantemente- jasmim, gardénia, tuberosa e flor de laranjeira em menor grau; mas também na madressilva e no lilás, que tecnicamente não são flores brancas) não cheira a fezes quando isolado.

Pelo contrário, se eu tivesse de dar uma referência comum eu o compararia ao cheiro rançoso mas curiosamente "fresco" (forte, penetrante, energizante em vez de calmente) das bolas de naftalina.

É verdade que a essência natural de jasmim, usada pela indústria de perfumes, é escura e narcótica, contendo cerca de 2.5% de puro indol. Isto muitas vezes dá um efeito "encorpado", luxuriante e íntimo ~há quem diga safado~ no componente final (partes femininas é uma das formas como é referenciado), tornando o jasmim mais "sexy" ou "animálico" como os entusiastas do perfume costumam descrever, apesar de tecnicamente o efeito safado, animal ser mais devido ao paracresol. Experiemente Serge Lutens' A la Nuit, e também Sarrasins (uma maneira diferente de ver o íntimo) ou Montale Jasmine Full, e saberá o que estou dizendo. Olene de Diptyque é outro que tem uma ambiência íntima dúbia, assim como a versão em extrait de Joy de Jean Patou, sublimado em tons rosados e almiscarados também, e o coração de Bal a Versailles (acompanhado do erótico civet). Tente também Bruno Acampora Jasmin.

No entanto,não é necessário exagerar no jasmim para sentir copiosas doses de indol: Pode também experimentar uma fragrância de cravos: Carthusia Fiori di Capri. Ele transforma uma caminhada no parque onde os donos de cães costumam passear seus cães numa experiência totalmente nova em termos de perceção!

Finalmente, muitas das fragrâncias modernas de flores brancas propositadamente evitam o questionável cheiro indólico. Isto acontece sem dúvida devido às sensibilidades modernas que preferem indivíduos totalmente desodorizados e artificialmente perfumados como o pico da pessoa civilizada. O respeito pelo vizinho, o amigo, o colega, a pessoa que faz compras a seu lado ou o espetador de cinema indica que se deve evitar qualquer coisa que possa ofender, mesmo se impercetivelmente. E quanto mais deseducadas forem as pessoas no que diz respeito a perfumes, mais elas reagem a cheiros questionáveis. Deve ter a ver com aprender a apreciar o imundo ou a aceitação de nossa própria mortalidade em paralelo com a decadência da vida das plantas e a evanescente, mortal natureza do próprio perfume. O que quer que seja, os perfumes indólicos são uma viagem fascinante para o amante dos perfumes e um verdadeiro ritual de passagem.

 

Elena Vosnaki

Elena Vosnaki é historiadora e escritora sobre perfume. É da Grécia e escreve para o Fragrantica. É a fundadora e editora do Perfume Shrine, um das mais respeitadas publicações independentes online sobre perfumes que contém resenhas de fragrâncias, entrevistas à indústria, ensaios sobre materias-primas e história do perfume, vencedora do Prémio Fragrantica Blog Awards e finalista em numerosos concursos e prémios de blogues.

A sua escrita foi reconhecida nos Prémios Fifi Awards para Excelência Editorial em 2009 e ela também colabora com publicações em todo o mundo.

Tradução e adaptação: Miguel Matos: [email protected]

 



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Jernê Knowles
Jernê Knowles

Elena Vosnaki foi destruidora nesta excelentíssima aula sobre Indol, já conhecia o termo através de pesquisas periféricas que me levaram também ao universo da perfumaria, daí liguei várias pontas soltas e passei a entender alguns aromas dos quais eu não sabia em tudo interpretá-los, e que muitos a minha volta me acusavam de loucura por sentir algo a mais em determinada nota.

Acredito que as notas que emanam características aromáticas Indol são possíveis sim de serem adaptadas a determinadas pessoas com o tempo, falo por experiência própria, já uma certa feita não suportei tal nota que por sinal me incomodava muito, contudo, depois de um tempo rolou a adaptação e hoje aprecio a mesma. As pessoas que não se encantam pela nota, recomendo darem leves chances e propiciarem futuros relacionamentos com a mesma, vale a pena!

Feb
02
2016
ginadantas
ginadantas

Bela matéria, parabéns!

Deve ser por isso que flores são associadas a defuntos e a eles enviadas nos rituais de sepultamento (pelo menos, no Ocidente)... Certamente, é algo que vai além do visual. A origem dessa tradição perde-se na noite dos tempos.

Sabemos, como bem atestou Albert Einstein, que "nada se cria, tudo se transforma": é a lei do Universo. Com a perfumaria, não poderia ser diferente. O olfato é a primeira ferramenta a dar ao recém-nascido o sentido da vida e de seu lugar no mundo. É pelo cheiro que a criança reconhece a mãe, bem antes de habilitarem-se seus outros sentidos, como a visão, por exemplo. São os cheiros corporais (em toda a sua extensão) que lhe transmitem conforto, segurança, relaxamento. Esses odores ficam em nossos registros, de forma que podemos identificá-los em sinais sutis sem sequer nos darmos conta disso, acionando áreas ancestrais de prazer.

Observo muito os cães, são os animais que mais adoro, pois seu sentido olfativo é extremamente apurado, é o que os leva a outras esferas de prazer que jamais serão de imediato alcançadas pelo ser humano. Pois bem, noto que os cães gostam muito de cheirar as fezes de outros cães; e um cheira o ânus do outro quando estão se conhecendo. É o sentido de identificar. De vez em quando, faço testes com minha poodle: borrifo uma pequena quantidade de perfume na minha pele, espero passar a fase alcoólica, ofereço o braço para ela cheirar e observo sua reação. Algumas vezes, ela fica hipnotizada e cheira com muita insistência como se desvendasse camadas de odor inimagináveis pra mim; noutras, faz menção de que quer lamber a fragrância (coisa que nunca permito). Acredito que isso tenha a ver (inclusive) com o indol. Vou prestar mais atenção.

(Aproveito para citar também o mimetismo olfativo da flor "Arum maculatum", que reproduz o cheiro de fezes e carniça com o intuito de atrair insetos apreciadores desses odores, para alimentar-se deles. Acho que essa flor nunca foi usada na perfumaria, mas elucida bem a proposta da matéria.)

E o que dizer do âmbar-cinza, o famoso regurgito da baleia cachalote (muito fétido enquanto fresco, encantador depois de seco e manipulado em laboratório)?

Ou de uma determinada receita secreta ancestral de perfume, que certos índios brasileiros guardam a 7 chaves e bem longe dos olhos da civilização do homem branco? Segundo os índios, é uma mistura de flores e raízes da floresta com certas "entranhas" de um determinado animal... Atribuem ao perfume valores mágicos, rituais. Embora empresas brasileiras se esforcem por descobrir a fórmula, consta que ela ainda continua secretíssima. Quem experimentou (no caso, foi uma jornalista), amou!

Por fim, mais uma pequena e interessante variação sobre o mesmo tema. Vejam que pérola de declaração, até mesmo pela sua simplicidade afetiva. Quando questionado, TOM FORD afirmou que seu perfume preferido é simplesmente... o cheiro da orelha do seu cachorro!!

Realmente, a genialidade no mundo da perfumaria não pode, de forma alguma, passear por nenhum tipo de preconceito olfativo!

Jun
05
2014
TatiORodrigues
TatiORodrigues

Amei!! Tenho muitas dúvidas qto a essa questão dos indóis (no Brasil é indol!). Melhorou muito o meu entendimento mas tenho muito mais a estudar. Tudo isso, veio por causa da minha reação péssima ao perfume Alien Thierry Mugler que possui doses cavalares de jasmim, aliás de todas as notas!!!! Rs

May
22
2014

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