Matérias primas Gálbano: Amargo, Verde, Acre

Gálbano: Amargo, Verde, Acre

07/03/13 04:34:58 (Um comentário)

por: Elena Vosnaki

O que é que as aberturas tonificantes e crepitantes de fragrâncias clássicas como  Chanel No.19, vintage Vent Vert de Balmain, Piguet Bandit eau de parfum e Cristalle de Chanel têm em comum? Gálbano, uma matéria tem uma personalidade tão intensa que, como um vilão inesquecível de um filme, acaba por projetar a sua sombra de tal forma que pode facilmente obscurecer e dominar tudo o resto. Se a Bruxa Malvada do Oeste no Feiticeiro de Oz tivesse um perfume, ele poderia ser este cheiro crú, verde e vegetal que combina com a sua tez esverdeada!

Ao contrário da bruxa, o gálbano não é muito conhecido entre os amantes de perfumes. O que é? O que não é? O que é que ele faz e como? O equívoco mais comum acerca do gálbano na composição de perfumes deriva do fato de ele ser rotineiramente mencionado como nota de topo; de fato, o gálbano é uma resina pegajosa originária de uma planta, tal como o ládano, e faz parte dos ingredientes mais tenazes numa fórmula no coração e na base. Mas é o seu intenso amargor com tonalidades verdes, como uma elixir conífera super-concentrado no laboratório de um alquimista louco, que se sobrepõe, desde o fundo ao topo e que imediatamente pica no nariz com uma capacidade de limpeza que apenas a amónia consegue suplantar.

O choque é esperado. Pegue em alguém não familiarizado com perfumes e deixe que cheire o aroma inicial de Chanel No.19; o mais provável é que essa pessoa nem se aguente até ao final da fragrância, tal é a sensação desagradável perante o estalo acre e intenso, para o nariz pouco treinado. Não é coincidência que a planta da qual ele deriva deva a sua etimologia ao Latim ferule que se refere a uma vara de professor. É um tapa na cara e concretiza aquela qualidade fresca, e dura aos perfumes em que participa. No entanto, também é valoriado pelas suas qualidades fixativas: como muitas das moléculas mais pesadas com menor volatilidade, ajuda a segurar os ingredientes mais efémeros e à medida que se expande numa sala conseguimos sentir o ar se tornar mais doce e confortável com nuances balsâmicas e amadeiradas.

A Chanel costumava usar uma variedade superior de gálbano iraniano, o que ajudou a formar a nota de topo de Cristalle e No.19. Na versão modernam nais orientada à juventude de No.19 Poudre a mordida do gálbano foi mitigada para não assustar tanto.

BOTÂNICA E HISTÓRIA

O óleo é derivado dos pés via destilação a vapor do resinóide que vem dos trincos e raízes da planta Ferula galbaniflua, que historicamente crescia na antiga Mesopotâmia e depois Pérsia. As cabeças em flor fazem lembrar angélica ou funcho, com os quais partilha da mesma força de caráter. A resina é naturalmente produzida quando a planta é ferida, num mecanismo de cura da natureza. Mesno dentro da mesma planta existem variações: o Levante e o Persa, este último sendo mais suave e e mais evocativo da terebintina.

Hoje em dia a planta ferula cresce na Turquia, Líbano, Afeganistão e Sul da Rússia, ao longo do Cabo da Boa Esperança e no Irão, claro, correspondendo à enorme procura por parte da indústria da perfumaria. Mas na antiguidade, a resina do gálbano estava entre as substâncias mais valorizadas em misturas de incenso, esse velho ritual de comunicação com os deuses. No saber hebraico o seu caráter acre simboliza o amergor da culpa do pecador perpétuo, que não se arrepende; e mesmo assim é incluído entre as especiarias doces, estoraque e onyha, no incenso do Senhor. Nas cerimónias egípcias, onde o gálbano era importado e pago muito caro, representava uma entidade benevolente. Era mencionado no "metopium," como comprovado pelo escritor grego e herbalista Dioscorides no seu De materia medica. Os gregos viam a matéria com um olhar prático, graças às suas propriedades medicinais; o pai da medicina, Hipócrates, recomenda-o para uma plêiade de maleitas, desde dores musculares a dificuldades respiratórias.

ATRIBUTOS AROMÁTICOS E COMPOSIÇÃO EM PERFUME

Cheirar a pasta espessa, granulada e amarelada assim como o óleo límpido produzido a partir dela é uma revelação: acre, estupendamente verde, um tornado de terebintina e um aroma terroso, turfoso, quase mastigável que se torna mais almiscarado, mais espessamente resinoso ao longo do tempo. É mercurial! Em diluição em álcool o "bouquê" abre e faz lembrar agulhas de pinheiro esmagadas ou ervilhas com tons de limão, muito fresco, vegetal e cortante, como estalar folhas frescas entre o polegar e o indicador. A resina persiste por oito horas ou mais.

Os constituintes químicos do gálbano são monoterpenos (α e β pinene), sabineno, limonene, undecatriene e pirazinas. O óleo puro é, contudo, frequentemente adulterado com óleo de pinheiro que pode ser a razão pela qual alguns lotes e importações cheirem mais a agulhas de pinheiro verdes e esmagadas do que outros.

O fato de o gálbano ser tão poderoso traduz-se em duas significativas considerações para os perfumistas: 1. Eles devem doseá-lo com muito cuidado; 2. Eles devem misturá-lo preferencialmente com ingredientes menos complexos e mais cândidos ou frescos (como hesperídios ou rosas) para conseguir um melhor resultado. Naturalmente, as essências com um cheiro "esverdeado", como o lírio do vale, o jacindo ou o narciso, fazem também bons "casamentos" com o gálbano.

FRAGRÂNCIAS COM GÁLBANO QUE CAPTAM OS SENTIDOS

Os melhores perfumistas, como Jacques Guerlain que o usou como como uma misteriosa nota de coração no oriental Vol de Nuit, podem emparelhar o gálbano com essências voluptuosas e inebriantes (como o ylang-ylang, jasmim, tuberosa, cardamomo ou incenso) ou em Sous le Vent onde lhe trouxe muita da sua frescura. A tensão na versão clássica parfum de Must de Cartier reside na justaposição da verdura do gálbano (coadjuvado pelo narciso, que partilha uma faceta verde oleosa) com o coração atalcado e quente de resinas (opoponax, benjoim, ládano e baunilha).

Em Vent Vert (que significa "vento verde") de Balmain, introduzido em 1945, o gálbano ganhou o papel principal e foi responsável pela moda das fragrâncias "verdes"; a perfumista Germaine Cellier, em vez de usá-lo para complementar outras notas, tornou-o em protagonista, dando-lhe o reinado e abrindo caminho para uma nova vaga de fragrâncias de cheiros mais "naturais". As fragrâncias "verdes", evocam o ar livre e a natureza muito mais do que a intimidade sofisticada e a densidade animal dos chypres. Apesar disso,o gálbano está também claramente presente em muitos chypres e fougeres (o clássico Ma Griffe de Carven, Parfum de Peau, o clássico Lauder Private Collection, o extracto vintage de Miss Dior, Cabochard vintage, Bandit com o seu jeito brusco de cortar à faca, Givenchy III, o moderno Private Collection Jasmine White Moss de Lauder) e florais amadeirados (o acima mencionado No.19, Fidji de Guy Laroche, Deneuve de Catherine Deneuve, Patou 1000, Le Temps d'une Fête de De Nicolai, Bas de Soie de Lutens, Silences by Jacomo), e até em florientais! (só para mencionar alguns, Boucheron Femme, Comme des Garçons de Comme des Garçons, Givenchy Ysatis, Moschino de Moschino, e o vintage Magie Noire)

Outras fragrâncias que exaltam o seu caráter verde são Bill Blass Nude, Ralph Lauren Safari, Chloe Eau de Fleurs Capucine, Issey Miyake A Scent, Fleur du Matin e Terre de Bois, ambos de Miller Harris, Infusion d'Iris de Prada, Roma per Uomo de Laura Biagotti, Borneo 1834 de Serge Lutens e Blue Jeans de Versace.

Ref: LAWRENCE, B.M; "Progress in Essential Oils" 'Perfumer and Flavorist' August/September 1978 vol 3, No 4 p 54 McANDREW, B.A; MICHALKIEWICZ, D.M; "Analysis of Galbanum Oils". Dev Food Sci. Amsterdam: Elsevier Scientific Publications 1988 v 18 pp 573 – 585

 

Elena Vosnaki

Elena Vosnaki é historiadora e escritora sobre perfume. É da Grécia e escreve para o Fragrantica. É a fundadora e editora do Perfume Shrine, um das mais respeitadas pubçlicações independentes online sobre perfumes que contém resenhas de fregrâncias, entrevistas à indústria, ensaios sobre materias-primas e história do perfume, vencedora do Prémio Fragrantica Blog Awards e finalista em numerosos concursos e prémios de blogues.

A sua escrita foi reconhecida nos Prémios Fifi Awards para Excelência Editorial em 2009 e ela também colabora com publicações em todo o mundo.

Traduzido e adaptado por Miguel Matos (migueldematos)

 



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MathKortz

Aprendendo muito com esses artigos sobre notas aromáticas, o gálbano que de fato não é uma planta muito comum ou conhecida merecia essa bela explicação.

May
27
2016

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