Coluna Viciado: A Pergunta Mais Ridícula

Viciado: A Pergunta Mais Ridícula

03/21/16 05:25:14 (3 comentários)

por: Dr. Marlen Elliot Harrison

Pelo fato de ter trabalhado na indústria envolvendo a perfumaria, de uma forma ou de outra, praticamente desde que eu era uma criança, nesses contatos encontrei uma incrível variedade de aromas. Considerando um bocado de anos, e por fim um bocado de aromas.

O autor como uma criança, interagindo com uma cliente.

Com o passar dos anos descobri que o meu gosto perfumado mudou; alguns aromas eu amei de uma vez por todas, de algumas notas logo me cansei, e de alguns que eu nunca gostei, jamais imaginei que viessem a se tornar favoritos de longo prazo. Por exemplo, como poderia imaginar que o Patchouli poderia ter um cheiro bom?

O que considero de extrema importância, e é um aspecto emocionante sobre perfumes, é o fato de que há sempre um algo novo esperando para ser descoberto. Assim como aqueles que colecionam discos de músicas ou os acumuladores de antiguidades, nós, os viciados em fragrâncias têm sensibilidades de recolha semelhantes. E, às vezes, essas coleções não são apenas para serem mantidas em segredo, mas consideradas e amadas como se fossem velhos amigos, prontos para contar mil histórias aromáticas.

É por isso que em mim dói quando as pessoas descobrem sobre o vício que tenho na perfumaria, ainda por cima me questionam: "Qual seu perfume favorito?"

Você descobre que é um viciado em fragrâncias quando responder a perguntas como:

  • Quais os para esta temporada?!

  • Para que parte do dia é este?!

  • São de que família olfativa mesmo?!

  • Que notas eles contém?!

  • Qual o preço?!

  • E de que marca mesmo era?!

  • São para evocar algum aspecto do humor?!

Qual é o meu perfume favorito? Você está de brincadeira? Essas são as perguntas feitas mais ridículas e frustrantes que tenho enfrentando rotineiramente nos últimos dias. Talvez você também, têm enfrentado esse desafio.

Embora em algum momento no meu passado eu, sem dúvida, tenha iniciado com um único aroma que considerei ser no momento "justo e direito", não demorei muito para, através de novas explorações, encontrar-me com diversos novos aromas que também eu poderia considerar "justo e direito". Parece que a tentativa de identificar uma fragrância favorita pode ser semelhante, a experiência em identificar uma imagem original em um fractal recursivo, onde cada imagem contém infinitamente mais imagens em si e sobre si. Quanto mais ia descobrindo, mais estava aprendendo, e quanto maior o meu território desconhecido era explorado, percebia que muito mais encontraria a frente.

Como eu poderia escolher apenas um perfume?

A cada dia que passa descubro uma nova fragrância a qual me apaixono, e no outro dia a mesma coisa, e depois novamente a mesma coisa, e depois continua igual, e depois tudo de novo novamente e por aí vai... O tempo que levei escrevendo este Artigo poderia ter descoberto e me apaixonado por mais umas 137 fragrâncias, eu só tinha que tê-las em minha frente. Ufa, seria os 15 minutos mais caros da minha vida.

Suponho que a origem destes questionamentos os quais considero ridículos reside no conceito sempre popular de se ter um perfume assinatura. Certa vez, sugeri durante uma entrevista com a Forbes que a fragrância que usamos hoje, é tanto quanto um acessório do dia a dia, tal como uma gravata ou um par de brincos; o tempo de se ter um perfume assinatura, já passou. Para mim, usar o mesmo perfume diariamente seria o mesmo que vestir uma mesma roupa dia após dia. E então, não devemos desfrutar de uma determinada variedade?

Hoje, a internet oferece uma variedade de conselhos sobre como encontrar sua assinatura olfativa. E embora eu tenha construído uma carreira em escrever sobre resenhas de variadas fragrâncias, sou o primeiro a admitir que nada se comparar a ter um perfume específico para se vestir. Não acho que questões como, preferências de cor, ou descrições semânticas podem fazer jus ao efeito que uma fragrância pode ter sobre o humor ou em relação à própria percepção olfativa pessoal de alguém.

 
“O perfume de uma mulher diz mais sobre ela que sua própria letra.”
― Christian Dior.
 

Não me interpretem mal, é perfeitamente aceitável que vocês tenham uma assinatura olfativa. Eu sei que, durante décadas, considerar sua fragrância como um cartão de apresentação foi algo totalmente natural, um sinal de sua presença deixando em uma sala ou em um abraço. Tenho certeza que muitos de vocês estão sussurrando: "Hey, hey, hey! Eu tenho um perfume assinatura! Meu pai tem perfume assinatura. E até a minha avó tinha um cheiro que era sua assinatura."

O único cheiro que me faz lembrar-se de minha avó é este:

Visitei recentemente a casa de um amigo cujo avô tinha acabado de se mudar; anos de pertences que foram armazenados em um guarda-roupa envelhecido, juntamente com um pacote de petecas de naftalinas que perfumavam toda a casa. Tudo o que me vinha à mente era: "Vovó?"

Tenho certeza que muitos de vocês quando sentem uma fragrância clássica, evocam imediatamente as imagens de um ente querido. Só penso que, se ele ou ela não tenha adotado um aroma para perfume assinatura, como poderá suas recordações ser diferentes?

Confesso que sou o tipo de pessoa que nunca teve um filme favorito, música ou cor. Variedade é definitivamente o tempero da vida para mim.

Geralmente me sinto um traidor com as outras fragrâncias da minha coleção quando escolho um perfume para vestir repeditamente. E, na verdade, reconheço que não tenho um único aroma ligado há anos em uma única memória. Eu gosto de narrar eventos especiais da minha vida como associados a uma grande variedade de aromas distintos.

Pode ter havido sim, momentos em minha vida onde fragrâncias específicas dominaram minha memória olfativa, mas eu sempre me desprendo deles e tendo a novos lançamentos ou a descoberta de clássicos desconhecidos:

Fahrenheit, acidentalmente foi todo derramado sobre mim, e por mim, quando ainda era um aluno de Ensino Médio, por meio de um desses decant do tipo use-você-mesmo, na Lord & Taylor, uma grande loja de departamentos. Talvez eis a razão pela qual esse tipo de sistema, para esta fragrância não exista mais nas vitrines. E também a razão pela qual eu já não o uso mais.

Eternity, foi um dos que me levou a acumular diversas fitas de papéis, amostra de revistas perfumadas até que a gaveta da minha mesa transbordou e eu finalmente recebi minha primeira garrafa. Até hoje eu não posso ficar sem uma garrafa de Eternity.

Sonas, descobri quando de férias estava e embriagado voltava de um banheiro, em um bar irlandês. Eu o amei tanto que me senti impulsionado a comprar três garrafas por lá mesmo onde estava. Quando cheguei em casa pedi mais uma boa quantidade de garrafas da fragrância como um back-up para não faltar.

Vol de Nuit foi o primeiro frasco de Pure Parfume que já consegui após uma longa espera e que mais tarde se tornou o aroma dos meus últimos dias quando estive no Japão. Amo sua Íris, Gramíneas e Baunilha.

Se eu tivesse um perfume como assinatura, poderia ser ele um aroma incrível que nunca tivesse gostado mesmo sem tê-lo conhecido? E se eu tivesse uma única, fragrância favorita a qual usasse cotidianamente, poderia minha mente facilmente organizar uma variedade de memórias olfativas distintas, todas relacionadas a um único aroma específico?

Atualmente, estou obcecado, isso tem cerca de 2 anos mais ou menos, numa mistura entre notas de Carvalho, Café, Baunilha, Patchouli e Cipreste que se sente particularmente de forma direita. Mas nem por isso torno favorita esta mistura para uma possível assinatura, ou para um único aroma definitivo, apenas estou louco por essa tal mistura, atualmente. Também estou rendido de amor por um perfumista japonês que criou a Casa de nicho d'Orsay, a qual já está até inativa nos dias de hoje.

Então, por favor, não me pergunte qual meu perfume favorito. Tal questionamento é insuportável e difícil de responder, e você simplesmente jamais teria tempo suficiente para sentar e me ouvir falar sobre minha descoberta dos últimos 300 anos da história da perfumaria. O melhor que eu poderia fazer, no momento, seria descrever meu real comportamento sobre as fragrâncias as quais estou a usar recentemente de forma mais contínua.

Nas últimas vezes que tentaram identificar um favorito meu, tive pesadelos em lembrar da Série Linha da Frente, e pensar que quem me lesse fosse imaginar que eu teria conhecido somente os aromas listados nesta Série, e desconsiderasse todas as incríveis que já conheci e ainda não listei.

Outros artigos nesta série:

Dr. Marlen Elliot Harrison

Editor Executivo

Dr. Marlen Elliot Harrison é jornalista no segmento de fragrâncias, suas publicações têm aparecido na imprensa internacional e em publicações on-line, tais como Playboy, Men’s Journal, Men’s Health e no The New York Times. Marlen também trabalha como coordenador de escrita no Museu Nacional de História Natural e como professor/supervisor do corpo docente de Literatura para os programas de pós-graduação on-line da Southern New Hampshire University’s. Saiba um pouco mais sobre Marlen em www.MarlenHarrison.com.

Tradução: Jernê Knowles

 

 





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Haziel
Haziel

Tambem nao "acredito" em assinatura olfativa... pelo menos nos dias de hoje. Agir dessa forma elegendo um unico perfume como sendo sua representatividade é de uma preguiça descomunal!

Claro que todos temos aromas preferidos mas isso nao significa deva ser um aromatizador ambulante de um determinado perfume. Sempre digo as pessoas que me pedem alguma indicação de perfume que: caso não tenha como ter algumas opções, escolha apenas uma! Que seja de boa qualidade, que lhe agrade e que não use todos os dias!

Ha pessoas que infelizmente consideram perfumes como simples acessórios não levando em conta todas as questões levantadas no texto. Eu ja os encarro como sendo uma extensão das minhas emoções. E as emoções são as mais variadas, afinal somos sentimentos e pensamentos em um fluxo constante, vivo e mutável.

Por isso acho impossível ter um perfume assinatura. A medida que evoluímos e aprimoramos nossos gostos e sentidos no universo dos perfumes, esse universo se torna cada vez maior. Atualmente acredito mais em "famílias olfativas" que mais nos agradam.

Elas seriam (as familias olfativas) como galaxias presentes em tão grande numero como tão grande é o universo.


Mas claro em toda essa imensidão, tudo bem ter uma "estrela guia" ;]

Mar
21
2016
Zelia79
Zelia79

Jernê, me identifiquei muito com o texto! O único perfume que já repeti mais vezes foi o Armani Code edp, mas não sou fiel a ele. Gosto muito da variedade, de vestir um humor com um perfume, de sentir que abri a cabeça em relação a novas descobertas ou redescobertas como é caso do Lou Lou que eu odiava quando era criança, e que agora me vem novamente e me parece que será um dos que irei me apaixonar.
Se é a gente é fiel demais, a gente deixa escapar coisas boas e maravilhosas pelo caminho da vida, a experiência, e maturidade e o conhecer de novos aromas, sejam perfumes, comidas, chás, flores, folhas, cheiro que fazem viajar, podem te levar a novas paixões...
Eu prefiro ter um a cada momento, a cada humor, a cada viagem olfativa que eu quiser desfrutar, ou fazer outros desfrutarem, apesar de eu não me perfumar para outros as vezes gosto da sensação de ser percebida com um bom aroma.
E eu já mordi a língua diversas vezes, dizendo odiar certa coisinha aqui e ali e hoje gosto , e até amo. rs
Como é encantador poder navegar pelos mares da perfumaria cada dia a dia com um novo olhar ;)

Mar
21
2016
Jernê Knowles
Jernê Knowles

Confesso que lendo este Artigo de Marlen minha cabeça deu um nó! Como assim, como fica meu perfume assinatura de hoje em diante?!

Visto Cabotine como perfume assinatura há quase 15 anos ininterruptos, e de uma hora pra outra me deparo com uma reflexão tão certeira dessa, mas que vai de encontro com o que sempre acreditei e pensei que soasse como uma verdade absoluta. Fiquei sem chão!

Contudo, o legal de se permitir ter o contato com novas idéias, é o nível de perspectiva que vastamente se ampliam e em um piscar de olhos nós permite novas descobertas sem abandonar as passadas ou se possível, readaptá-las a novos moldes e paradigmas antes não experimentados.

Mar
21
2016

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