Avaliação de Fragrâncias Pegada de Monstro: As Três Vidas de Rumba - Uma Comparação

Pegada de Monstro: As Três Vidas de Rumba - Uma Comparação

06/22/15 12:24:13

por: Miguel Matos

É difícil evitar o choque quando alguém lê o nome Jean-Claude Ellena na mesma página de Rumba ou First. Mas sim, estas foram algumas de suas primeiras criações, ele que é considerado o rei do minimalismo em fragrâncias. É como dizer que Donald Judd foi quem construiu a Disneyland ou Mies Van der Rohe desenhou Versalhes. First e Rumba são exemplos perfeitos do estilo Barroco nos perfumes. Demasiadas coisas ao mesmo tempo, demasiadas notas (algumas até são redundantes), demasiados acordes e projeção explosiva. Mas por enquanto concentremo-nos naquilo que considero como um dos mais fortes perfumes que eu já cheirei, na mesma força de Amarige, Tabu, Poison Obsession.

É uma sobreabundância de opulência—até esta frase é exagerada. Rumba é a fragrância mais densa, espessa, doce e esfumaçada que Ellena fez até agora. E eu gosto dele, é claro. Este é um perfume que eu raramente uso, mas quando estou numa de fazer a linha extravagante e me sinto com vontade de esmagar toda a gente em volta, não existe alternativa. Tem de ser Rumba e eis que estou no paraíso da fruta esfumaçada. Rumba foi lançado em 1988 por Balenciaga e foi um grande êxito dos anos 80. Neste perfume tudo é grande. E é por isso que eu gosto dele. Mesmo que eu tenha tendência para me sufocar nele nos primeiros cinco minutos. Um elemento de surpresa: ele até que funciona bem com clima quente, por mais paradoxal que isso possa parecer.

 

 

Algures no tempo, a casa Ted Lapidus conseguiu os direitos de produção e venda de Rumba com seu próprio nome numa jogada nunca antes vista na indústria de perfumaria. O frasco é o mesmo, mas ele diz Ted Lapidus em vez de Balenciaga. E é a versão Lapidus que ainda podemos encontrar no mercado, 27 anos mais tarde. É um clássico e o bestseller feminino da linha Lapidus.

“Algumas fragrâncias nasceram para serem lendárias. Esplêndida e misteriosa, Rumba foi a primeira fragrância de sedução e, na altura de seu lançamento mundial em 1988, causou uma verdadeira revolução, introduzindo uma identidade olfativa totalmente nova. Mais que um perfume, é uma pegada opulenta, fascinante, inimitável e inesquecível. Uma combinação de sensualidade confiante, feminilidade incarnada e potente intensidade que deixou uma marca indelével na história da perfumaria”—Diz Ted Lapidus muito bem em seu press release. Opulento ele é, gourmand avant la lettre, e quanto a ser inimitável, conheço uma fragrância que chega bem próxima de Rumba: Regine's. Apenas mais suave. Ou Montana Parfum de Peau, mais especiada.

Este é um chipre animálico orgulhoso e exuberante, frutal, gourmand, esfumaçado, resinoso, de composição oriental. Consegue ser tudo ao mesmo tempo, exceto fresco. E para mim isso funciona. Não é um perfume atual, de maneira alguma e eu consigo imaginar muita gente fugindo dele. Mas sua ameixa incensada e caramelizada é tão convincente e luxuosa que torna Rumba único e insubstituível. É uma pena que seja um perfume esquecido porque ele merece algum apreço, agora que as marcas nicho estão se aproximando cada vez mais dos cheiros intoxicantes, este poderia ser um deles. Como diz Barbara em seu livro Scent and Subversion, “talvez Rumba seja o perfume que fez Jean-Claude Ellena voar para os braços do Minimalismo do Perfume, como um alcoólico em tratamento depois de um fim de semana de loucura.”

É possível comprar Ted Lapidus Rumba na Internet e ele não é caro. Mas você pode também ter a sorte de encontrar a versão original de Balenciaga. Portanto, qual deles escolher? São muito diferentes? Eu tenho ambos e tentarei diferenciá-los. Direi desde já: eles são diferentes, mas não muito e são ambos bons. E depois há também Rumba Passion...

 

VINTAGE RUMBA DE BALENCIAGA VS. RUMBA DE TED LAPIDUS

A abertura em Rumba de Balenciaga vintage é desde logo densa e esfumaçada, com uma explosão doce de ameixas. É comos e alguém tivesse deixado secando sobre uma núvem quente de incenso. A abertura na versão moderna Ted Lapidus Rumba é mais fresca e as notas frutais são mais abstratas. Não é um aroma tão denso nos primeiros minutos. Enquanto a versão de Balenciaga pode sufocá-lo imediatamente, a de Lapidus deixa respirar. A versão moderna não é tão profunda, intoxicante e obscura. Isso pode ser bom o mau dependendo daquilo que procura. Eu prefiro a quase asfixiante abertura do vintage, mesmo que por vezes ela me impeça de usá-la. É bizarro como na formulação vintage as notas de coração surgem logo nos acordes iniciais. Talvez isso seja devido à oxidação das notas de topo, mas eu sinto isso em meus dois frascos vintage. O efeito é tão forte que poderíamos pensar que tem oud lá dentro. Os florais no Rumba vintage concentram-se na tuberosa e no cravo. As versões modernas têm menos cravo. A fumaça é de charuto, doce e espessa. Tudo isto vem embrulhado em fortes acordes de couro e mel. Somos conduzidos através de uma viagem gourmand, oriental, esfumaçada e doce onde tudo é demais (esta é uma característica do jovem Ellena, pois First também pode ser descrito como “mais é mais”). A versão moderna de Rumba por Ted Lapidus tem todos os efeitos presentes na edição original menos uma dose de animálicos, embora eu ache que há mais oxigénio entre as notas, e isso o faz mais fácil de usar. Se não consegue encontrar Rumba de Balenciaga, você terá uma visão bem próxima na versão de Lapidus, por isso se jogue. Mas se você quiser matar toda a gente em sua volta com uma pegada monstra de incenso e flores super doces (e uma enorme tuberosa) com frutas isso você consegue de forma mais eficaz com o Rumba vintage. Conclusão: uma boa reformulação, não exatamente igual, mas muito próxima.

 

RUMBA PASSION

 

“Inspirado nos irresistíveis ritmos Latinos, Rumba Passion é uma melodia de notas sensuais que acariciam e estremecem na pele. Uma apaixonada abertura dá o mote em notas efervescentes de bergamota que dançam com o aveludado aroma do alperce e da davana. De coração vibrante, a flor de laranjeira e o jasmim acertam o passo com uma faceta profunda de rosas, revelando toda a complexidade, o raro e imperial caráter deste buquê floral. Notas de base pulsantes de incomparável sensualidade bafejam numa sillage de mel, e patchouli abaunilhado. Mais moderna e jovial, esta nova fragrância é enriquecida com essências naturais que preservam a pegada radiante da versão original e coloca a feminilidade num pedestal. Uma elegante e magnética interpretação da lendária criação, trazida à vida com nova paixão”—Ted Lapidus press release

Para ser honesto, não vejo grande relevância nesta edição. É um flanker que fica próximo da estrutura da edição-mãe, embora menos rica. Pode ser apenas um pouco mais suave, mas a longevidade é épica: mais de 12 horas. De novo, isso pode ser bom ou mau, pois eu muitas vezes me canso de uma fragrância e esta é gritante até seus murmúrios finais. Em Rumba Passion há um reequilíbrio das notas originais. A fumaça é um pouco dissipada e os florals são aumentados. As frutas ainda lá estão. A tuberosa continua gritando alto, embora as notas oficiais mencionem flor de laranjeira apenas. Considero Rumba como uma ousada fragrância unisex, mas este Rumba Passion é mais apropriado para o lado feminino, diria. O aspeto frutal ganha em proeminência à medida que o perfume se move desde um animáloco anos 80 para uma típica fragrância frutal experimental dos anos 90. O ambiente barroco ainda se mantém, numa composição mais simples e mais sintética. Ele não é tão complexo e com o tempo se torna impossivelmente doce ao ponto do exagero. Uma ideia de chiclete vem à mente na secagem e o aspeto animálico desaparece em favor de um pronunciado tom de âmbar e baunilha que segue os doces florais brancos. No geral, a doçura da edição-mãe é amplificada ao extremo e devido à menor quantidade de fumaça ela se torna numa sobredose sintética de açúcar no final. Perfeito para quem gosta de Joop Homme, por exemplo.


Rumba de Balenciaga
Notas de topo: bergamota, ameixa, mangericão, pêssego, flor de laranjeira, framboesa e mirabelle
Notas de coração: mel, jasmim, tuberosa, cravo, heliotrópio, magnólia, gardénia, lírio do vale, orquídea, malmequer e rosa
Notas de base: ambergris, baunilha, couro, fava tonka, patchouli, almíscar, sândalo, cedro, ameixa, estoraque e musgo de carvalho

Rumba de Ted Lapidus
(lista oficial da marca)
Notas de topo: bergamota, notas verdes, mangericão
Notas de coração: jasmim, flor de laranjeira, mirabelle, rosa
Notas de base: musgo de carvalho, sândalo, âmbar, patchouli, notas animálicas

Rumba Passion de Ted Lapidus
Notas de topo: davana indiana, rosa, bergamota
Notas de coração: ládano espanhol, flor de laranjeira
Notas de base: baunilha, patchouli indonésio, mel

 

 

Miguel Matos é um jornalista português obcecado por arte e perfumes. Ele é o editor da secção de arte da revista Time Out Lisboa e dirige sua própria revista cultural, Umbigo, além de colaborar com textos para museus e galerias de arte, tendo editado também um livro de entrevistas com artistas. Ele coleciona perfumes e é especialmente apaixonado por vintages. Ele é escritor, tradutor e editor do Fragrantica.com.br

 



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