Perfumaria de Nicho O Inexplorado Segmento Indie do Maior Mercado de Perfumaria do Mundo

O Inexplorado Segmento Indie do Maior Mercado de Perfumaria do Mundo

06/02/16 05:50:46 (8 comentários)

por: Daniel Barros

Desde 2011 o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de vendas de fragrâncias, ultrapassando o mercado americano. Uma particularidade notável é a concentração de 95% das vendas nos canais de venda direta (57%) e franquias (38%), dominados pelos grupos O Boticário e Natura. Isso significa que o mercado de perfumaria brasileiro conta com apenas 5% das vendas via varejo, ou seja, perfumarias multimarcas, onde se encontram os importados. Pode-se concluir, então, que, ao contrário dos outros grandes mercados, perfumes de designers como Chanel, Dior ou Yves Saint Laurent compõem uma porção mínima do consumo total. Existem também dois outros tipos de fornecedores, embora com faturamento residual: os designers de roupas (que vendem em suas próprias lojas) e os perfumistas indies (que vendem essencialmente pela internet). Este artigo é focado neste último segmento.

COMPANHIA DA TERRA

O pioneiro da perfumaria indie brasileira foi Ricardo Penafiel Malta que, mediante um contato com a inglesa Jeanne Rose (uma das precursoras da aromaterapia) em 1975, motivou-se a fazer suas próprias fragrâncias à base de ingredientes nativos do Brasil. Voltando de sua viagem, Ricardo se debruçou em pesquisas e descobriu que diversos óleos essenciais eram exportados para entrarem na composição de perfumes estrangeiros famosos como o Chanel Nº 5. A partir daí, decidiu investigar tudo sobre a arte até compor sua primeira criação – Águas de Verão – em homenagem à famosa música de Tom Jobim, Águas de Março. Curiosamente, tanto o compositor quando a intérprete, Elis Regina, eram amigos de seus pais.

A primeira criação fez tanto sucesso que se tornou o perfume há mais tempo em fabricação ininterrupta no Brasil, o que para Ricardo foi uma indicação da existência de um novo público a ser abordado. O perfumista autodidata acabou estabelecendo, em 1976, sua marca Companhia da Terra, hoje com 28 fragrâncias cadastradas no Fragrantica. Desde sempre, a estratégia de Ricardo foi focar em composições de plantas comuns, todavia com aroma agradável e boa performance. Sua ideia era propor um novo tipo de luxo: fragrâncias puras e minimalistas que as grandes marcas francesas – movidas a objetivos aspiracionais do consumidor – não poderiam oferecer. A Companhia da Terra continua sediada onde foi fundada, em Petrópolis, Rio de Janeiro, tendo sobrevivido todos esses anos apesar de manter sua pequena estrutura de ateliê. Além da loja virtual, a casa vende suas criações em lojas próprias espalhadas pelo território nacional.

ANE WALSH

Outro pilar da perfumaria de indie brasileira é Ane Walsh. A perfumista começou sua carreira aos 20 anos, quando dois colegas de faculdade decidiram abrir uma boutique e a encarregaram de fazer o perfume para a grife. A jovem moça se empolgou com o projeto e se matriculou num curso prático de perfumaria. Com seu novo conhecimento, a arte de confecção de fragrâncias tornou-se sua ocupação principal e assim começou a vender criações artesanais em feirinhas e bazares. Com o tempo, Ane foi estudando e aprendendo técnicas pela Natural Perfume Academy, tendo recebido prêmios internacionais. Atualmente, a perfumista se concentra em composições artesanais feitas sob medida (bespoke), compostas praticamente com ingredientes naturais.

Seu trabalho está fortemente ligado à aromaterapia, lidando no dia a dia com óleos essenciais, absolutos, concretos, tinturas e macerações. As criações de Ane se dividem basicamente em dois tipos: as de suas próprias inspirações (um show, conversa, música ou paisagem) e as encomendadas por seus clientes (via um pequeno briefing). Morando numa pequena cidade no interior do estado de Minas Gerais, Ane atua com um estilo low profile, tendo sua demanda gerada sobretudo pelo boca a boca. Muitos pedidos são atendidos através do seu site ou Facebook.

Segundo a perfumista, sua clientela masculina é mais objetiva e busca exclusividade, enquanto as mulheres preferem diversidade e demoram mais para encomendar seu exclusivo. Além da sua atividade primária, ela representa fornecedores, faz sabonetes e dá cursos de perfumaria. Desta forma, Ane também é influente na formação de novos perfumistas brasileiros, os quais recebe com braços abertos.

AMBERFIG

O Brasil não ficou imune ao boom das redes sociais e seu impacto na perfumaria. Por um lado, os consumidores passaram a ter mais acesso ao conhecimento sobre perfumes em si, passando a serem mais exigentes nas suas compras. Por outro, a facilidade no compartilhamento de know-how e o acesso a fornecedores de matérias-primas permitiram que pequenos empreendedores estudassem a arte por si próprios e estabelecessem suas próprias marcas. Um bom exemplo é David Magalhães, que fundou em 2014 a casa Amberfig. Motivado a pesquisar sobre Kouros de Yves Saint Laurent, um perfume que ganhou aos 12 anos, David acabou encontrando um briefing e foi tentando desvendá-lo, surgindo aí uma curiosidade incessante sobre perfumaria. Nos anos seguintes, o adolescente passou a colecionar perfumes, treinando seu nariz para detectar notas olfativas. Já com 16 anos, David decidiu comprar alguns óleos essenciais e ensaiar criações, tendo no ano seguinte finalizado suas três primeiras composições.

Precisando dedicar seu tempo à faculdade de Medicina, ele deixou de criar por alguns anos, retomando somente em 2013. No ano seguinte, fundou a Amberfig. Sua inspiração vem de diversas fontes. Um exemplo é Oriental Noir, concebido como um oriental que pudesse ser usado em climas quentes como o de sua cidade – Fortaleza, Ceará. Outro exemplo é Café Massoïa, inspirado no aroma de café misturado ao cheiro de livros novos de uma livraria que frequenta. Seu público é formado essencialmente por colecionadores ou aficionados que buscam algo diferente, complexo e mais natural. Sem uma loja física, suas vendas são concentradas em seu site. Recentemente, graças à uma boa divulgação nas redes sociais, o perfumista começou a exportar suas criações.

Os três exemplos retratados – Companhia da Terra, Ane Walsh e Amberfig – claramente ilustram a contradição da perfumaria indie do Brasil: um potencial gigante e pouco explorado, em parte devido à dominação das grandes marcas locais, em parte devido ao reduzido interesse do brasileiro por produtos artesanais. De toda forma, a crescente demanda por perfumes mais naturais, originais e exclusivos é inegável. Os próximos anos deverão mostrar o fenômeno já ocorrido há muito tempo em outros mercados: uma grande quantidade de novos perfumistas fundando suas próprias marcas, promovendo-se via redes sociais e vendendo em lojas virtuais.

Daniel Barros é proprietário da Ego In Vitro – consultoria que ajuda pessoas a encontrar perfumes de acordo com seu estilo e personalidade. Para isso, desenvolveu uma metodologia comprovada de experimentação de amostras dentre as mais de 1300 fragrâncias de seu acervo. É também autor dos guias 202 Perfumes para Provar antes de Morrer – Edição Masculina e 303 Perfumes para Provar antes de Morrer – Edição Feminina. Recentemente começou a criar seus próprios perfumes. Daniel mora atualmente em São Paulo, Brasil. 

 



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jmsm
jmsm

Apesar da "burocracia tupiniquim", temos demonstrações de empreendedorismo de sucesso colocando brasileiros como expoentes no mercado secular de fragrâncias, parabenizando o mestre Daniel com mais um tema de interesse no ramo da perfumaria, que vem a somar aos assuntos abordados no seu
EGO IN VITRO, e no seu livro que acabei de adquirir...muita paz, saúde e sucesso.....José Maurício.

Jun
03
2016
henri345que
henri345que

Vc citou algo importanto de fato Math, ainda não valorizamos a nossa herança nacional. O que é o pena, pois a diversidade brasileira poderia gerar conceitos interessantes. É algo pouco explorado, até mesmo no exterior, já que quando fazem perfumes inspirados no Brasil quase sempre são frescos e com conceito de caipirinha

Jun
03
2016
MathKortz
MathKortz

Henrique, muito obrigado pela sua resposta.

Eu realmente imaginava de leve as dificuldades para se fazer uma essência/perfume, e de fato, não imaginava toda essa extensão de fatores minuciosos e delicados que põem todo um investimento em risco, e pensando que a taxa de juros no brasil é uma das mais altas, não se torna atrativo mesmo apostar nisso, ou os preços seriam absurdos. Juntando a isso o fato de o brasileiro dar mais valor à coisa importada, internacional, "francè", italianni ou british, provavel que as vendas ainda fossem baixas.

A tristeza é que no fim, assim como a indústria farmacêutica faz, vão ser empresas internacionais que vão dominar ou sintetizar aromas naturais brasileiros...

Jun
02
2016
angelicaalbuquerquesantos
angelicaalbuquerquesantos

Amei o artigo !
Tenho saudades do perfume 'Lima da Pérsia' da Cia da Terra.Era o meu favorito junto com o 'Água de Almiscar'.Não tinha uma vez que usava que não me perguntavam qual perfume estava usando.Era delicioso.
Achei muito interessante saber das outras marcas também.

Jun
02
2016
henri345que
henri345que

MathKortz, apenas comentando com relação a busca por novos ingredientes brasileiros. Apesar de termos uma grande biodiversidade, esbarramos num aspecto técnico, o da extração e sustentabilidade do processo. Você precisa ter equipamentos capazes de extrair os óleos essenciais de plantas e flores de forma a preservar da melhor maneira possível as propriedades aromáticas da planta. As técnicas que melhor produzem isso - destilação por arraste a vapor, extração por solventes, extração com CO2 - exigem grandes investimentos na compra de maquinário. Isso sem contar na necessidade de profissionais treinados no processo. Isso já torna inviável para um produtor local investir na plantação de espécies nativas apenas com esse propósito. Como muitos materiais devem ser processados logo em seguida a colheita (principalmente flores), você precisa ter os aparatos de destilação próximos ao local da colheita.
Outra coisa importante: muitos materiais precisam de muitas toneladas de matéria bruta para produzir 1kg de óleo essencial. E é algo que para valer a pena do ponto de vista da perfumaria precisa ser fornecido de forma constante, se não você cria algo maravilhoso que não pode mais ser reproduzido depois. Ainda não temos tradição nessa área para termos esse tipo de mentalidade no processo.

Jun
02
2016
parfumage
parfumage

Belíssima matéria do Daniel Barros, parabéns, tenho muita curiosidades nos perfumes da Amberfig e Companhia da Terra, quem sabe também, possamos ver os perfumes do Daniel por aqui! Parabéns Daniel!

Jun
02
2016
caioasfoura
caioasfoura

Ótimo saber que existem casas nichadas brasileiras com identidade própria e de qualidade estupenda. Se dependêssemos exclusivamente das grandes perfumarias daqui, usaríamos apenas dupes dos importados aclamados – deixando nossa brasilidade à deriva. Merecem, no mínimo, um reconhecimento e congratulações pela iniciativa ousada.

Jun
02
2016
MathKortz
MathKortz

Companhia da terra - casa tradicional, de nicho, mas acessível

Amberfig - nicho de luxo mesmo

Ane Walsh - não conhecia.

Muito boa a matéria, tenho interesse em adquirir alguns da Cia da Terra (há perfumes lá que não saem muito mais caro que um natura ou boticário... também há águas de colônia mais acessíveis ainda), casa essa que não conhecia até pouco tempo atrás, e por um momento achei que já nem existisse. Creio que seja difícil pra eles, como casa pequena, pesquisar novos ingredientes brasileiros. Mas tenho tanta vontade que um dia nossas casas honrem a nossa natureza única, quem sabe a amberfig ou a ane walsh não apostam hein!

Desejo todo o sucesso pra essas casas brasileiras.

Jun
02
2016

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